Brevíssima história da Psicanálise

Sua gestação foi de uns dois milênios, o parto foi difícil e durou quase um século, mas o bebê que nasceu saudável já é adulto. Bem resumidamente, o percurso foi o seguinte:

- O filósofo Aristóteles (384-322 a.C.) descobriu as leis do raciocínio, disciplinando-o com palavras, já que não é possível o pensamento sem a linguagem. A palavra engravida o pensamento, para produzir sentido. Para tanto, estabeleceu as leis do verdadeiro raciocínio, que não admitem contradição, utilizando o silogismo, cuja raiz etimológica é: “com palavras”, ou “com lógica”. Trata-se de um raciocínio dedutivo, estruturado a partir de duas proposições (premissas), obtendo-se, por inferência, uma terceira proposição conclusiva e irrefutável. Seu exemplo clássico é: “Todos os homens são mortais; ora, Pedro é homem; logo, Pedro é mortal”. O curioso é que todas estas sentenças ou proposições utilizam o verbo na terceira pessoa do plural ou do singular, sem implicação do sujeito da primeira pessoa. E tal tipo de raciocínio, totalmente consciente, não deixaria margem à dúvida, porque nossos sentidos não nos enganariam. O homem é definido aí como “animal racional”. Nossos sentidos fornecem o material para que nossa razão faça julgamentos exatos e conformes à verdade.

Friedrich Hegel (1770-1831) dizia: “Tudo o que é racional é real, e tudo o que é real é racional” (Dicionário de Filosofia, Gérard Durozoi e André Roussel, pág. 216).

- Somente dois milênios depois, é que o primeiro e maior filósofo, Aristóteles, foi contestado por René Descartes (1596-1650). O principal aforismo cartesiano é a frase emblemática: “Penso, logo sou”. Sua importante contribuição é o fato de introduzir, como sujeito, a primeira pessoa do verbo, o eu consciente. Ele reafirma nossa consciência de pensar e de existir, embora isto não passe de uma tautologia ou redundância, porque usa palavras diferentes para dizer a mesma coisa. É evidente que, se alguém pensa, (anda, come, ou dorme) tem que existir. O conceito de existir já está implícito em qualquer atividade humana. Mas há uma segunda contribuição de Descartes, chamada de “dúvida metódica”, que consiste em duvidar de tudo, inclusive do seu ‘cogito’. Nossos sentidos podem nos enganar. ‘Penso que sou’, pode inverter-se em ‘sou o que penso’, e é nesta consciência, neste ego imaginário, que habita nosso maior engano.

- Aqui nasce a psicanálise. Uma atenção profunda à linguagem humana, especialmente à linguagem dos sonhos, dos atos falhos e dos sintomas, nunca antes levados a sério, proporcionou a Sigmund Freud (1856-1939) a descoberta de um outro eu, além do eu consciente. Quando sonhamos, à noite, com coisas que não aparecem na vida de vigília; quando fazemos um ato falho, dizendo, de maneira comprometedora, aquilo que não tínhamos intenção de dizer; e quando desenvolvemos um sintoma que nos incomoda e que não conseguimos eliminar, é um outro eu que faz tudo isso. Logo, temos dois eus. Boa parte, ou a maior parte de nosso ser, pensar e agir foge às regras do silogismo e da certeza, admitindo, inclusive, a contradição, que é patente nos sonhos, e mantendo uma dúvida constante sobre o significado das várias formações de nosso inconsciente. Antes de Freud, os humanos não podiam acessar diretamente seu inconsciente que, aliás, desconheciam, aproximando-se dele só através da mitologia, literatura e artes, de maneira precária, ininteligível e impessoal.

O método psicanalítico vai utilizar as palavras, numa associação livre metódica, desobedecendo ao suposto ‘verdadeiro raciocínio’, para decifrar a verdade subjetiva, e não a verdade científica, objetiva, universal, lógica e consciente de Aristóteles. Em consonância com outra lógica, paraconsistente, que admite a contradição, descoberta recentemente pelo matemático brasileiro Newton da Costa, Freud já havia proposto um cogito totalmente diferente do cartesiano, que poderia ser enunciado assim: “Eu desejo, logo sou, como sujeito do inconsciente”. A partir disso, é possível acessar aqueles conteúdos que o sujeito recalca e expulsa da consciência para não se defrontar com eles, porque são absurdos, contraditórios, insuportáveis, ou ameaçadores. O desconhecimento ou negação destes conteúdos converte-se numa neurose, cujos sintomas nos fazem sofrer desnecessariamente. A definição do homem seria aqui: “animal desejante”.

Com a chegada de Jacques Lacan (1901-1981) e com o recurso da Linguística, ficou ainda mais clara a natureza do inconsciente, estruturado como linguagem, na qual o ser humano se subjetiva, podendo reencontrar os elos perdidos de sua história, nas lacunas da cadeia significante que veicula seu desejo.
Também o cogito lacaniano, como o freudiano, é o oposto do cartesiano: “Penso, onde não sou (sujeito do inconsciente)”; e “sou (sujeito do inconsciente) onde não penso”, isto é, na associação livre, que consiste em falar sem pensar, numa relação transferencial, no processo de análise”.
Lacan opõe-se também a Hegel, afirmando que a razão consciente é imaginária, e o irracional, o nonsense é o Real. O conceito de Real, em Lacan, extrapola o real de Hegel.

Fica patente, então, a diferença entre a filosofia e a psicanálise: a primeira, da qual somente alguns baluartes foram citados, cuida da lógica consciente e do pensar racional; já a psicanálise, ou a cura pela palavra, vai explorar os afetos da angústia de castração e o consequente surgimento do desejo inconsciente e dos demais sonhos humanos, comandados pelos registros lacanianos do Real, Simbólico e Imaginário.

A Psicanálise abeberou-se de alguns rios da Filosofia, mas construiu seu próprio oceano, profundo, volumoso.

Geraldino Alves Ferreira Netto – psicanalista - geraldinoafn@uol.com.br - Campinas, dezembro de 2014.


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