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Uma outra fala de amor

Mani Alvarez

 

            O amor pode ser falado de formas distintas pelos poetas, pelos enamorados e pelos doentes. Estes últimos o dizem da forma mais dolorosa, através do sofrimento de seus corpos, pelo negativo do amor, seu lado avesso, sua denegação. Fechado dentro de si, emaranhado em suas próprias redes narcísicas, o doente só fala de amor pelo corpo que dói, que se contorce, que morre. Não faz diferença que sua doença seja mental ou orgânica. Aliás, qual é a diferença? Quem dividiu o ser humano em dois, corpo e mente? Tudo que há é uma pulsão que se representa e nisso consiste o existir humano, existir que nada mais é que um estar-fora-de-si. Este é o drama do ser vivente. A vida, no animal, é dada de uma só vez, de um só gole, toda a taça do real.  O humano emerge de uma ruptura. Um rasgo que o separa de si mesmo. Não há esse corte simplista que a ciência preconiza entre corpo e mente. Tanto um quanto o outro são expressão de uma única função infinitamente humana: o simbólico.

            O amor poderia ser designado como uma ‘semiótica dos afetos’, segundo terminologia usada por Julia Kristeva, no sentido de ser algo anterior ao significante, mas que permeia e só se atualiza mediante os significantes. É o que torna suportável a divisão inexorável do sujeito para com ele mesmo; ao mesmo tempo em que o abre, o articula, o conecta com o outro. Num mesmo movimento, o sujeito se apreende dividido e salvo pelo outro que o reconhece. O que circula nesse momento é da ordem da significância, não ainda dos significantes. Platão, no Timeu, já falava da existência de algo anterior à representação, um “receptáculo arcaico, móvel e instável, anterior ao UM e mesmo à sílaba, metaforicamente designado como alimentar e maternal” (1).

            Nesse sentido, toda doença é uma doença semântica, uma doença de amor. Resgatando o sentido aristotélico da ‘paixão’, encontramos patologia, sofrimento que vem do amor, ‘eros doente’. Estar sob o efeito de uma paixão é estar imobilizado e passivo sob o domínio de um significante. Para Freud, o que distingue o amor da paixão seria a localização do objeto na função do ego ou do ideal do ego. No primeiro caso o ego se enriquece com as qualidades atribuídas ao objeto, mas mantém sua autonomia em relação a ele. No segundo caso o objeto se torna excessivamente libidinizado e é colocado no lugar do ideal do ego. É a paixão cega e desenfreada. A imagem do outro se torna absolutamente indispensável para sustentar a ilusão da unidade do sujeito consigo mesmo. Preso na armadilha do espelho, o apaixonado, ao perder sua imagem, mata ou morre. Por isto, diz Bataille, o que acompanha a paixão é sempre um halo de morte.

            Historicamente a paixão foi compreendida ora como algo oposto ao Logos, enquanto potência inerente a todo ser humano, porém passível de ser dominada; ora como um estado patológico, doentio, adquirido e desviante da ‘normalidade’. Tida como um estado inferior, fenômeno irracional, tendência ou fraqueza da alma, a paixão, na antiguidade, esteve sob a jurisdição de uma ética derivada de uma certa compreensão do Logos que nada tem a ver com a nossa ‘razão’ atual. O Logos, na concepção grega, era a expressão de uma verdade ontológica -- palavra que leva à verdade do ser. Sua ética consistia, sobretudo, num saber canalizar as paixões, colocá-las a serviço do humano. O apaixonado era tido como um desregrado, não um demente.

            Porém, um impasse havia sido criado. Se a paixão é um estado inerente a todo ser humano, como explicar a coexistência de princípios tão contrários como o Logos e o ‘alogon’? Se a razão é constitutiva da natureza humana, como pode surgir o irracional? Estas reflexões levaram os gregos à moderna concepção de representação, ou seja, é através da forma pela qual a representação de algo se inscreve em mim que se desencadeiam os afetos e surgem as paixões. Portanto, paixão é uma representação que vem do outro e se abate sobre o sujeito, imobilizando-o. O ‘pathos’ se torna então uma ‘tendência’, uma força que padece. E assim o ‘status’ de normalidade das paixões vai cedendo lugar ao patológico e surge a figura do terapeuta, aquele que se dispõe a ouvir ‘eros doente’. Seu trabalho consiste em restituir a justa proporção de amor (2) àquele que padece os seus excessos. O objetivo não é mais conduzi-lo ao caminho da virtude ou da sabedoria, mas de integrá-lo à vida e à sua própria verdade.

            Sendo assim, como explicar a esquizofrenia que permeia toda nossa tradição racionalista e positivista, e que marcou os fundamentos daquilo que convencionamos chamar de ‘científico’? Como compreender as proibições que cercam a palavra ‘amor’, matriz da subjetividade, no contexto das ciências médicas que lidam justamente com as doenças do sujeito? No momento em que o Logos grego cedeu lugar à Ratio latina, algo maior que um movimento histórico e cultural ocorreu. Um ideal ascético se sobrepôs ao ideal ético dos gregos antigos, estabelecendo parâmetros para o estabelecimento de uma moral normativa, em detrimento da busca da verdade do sujeito. O que era antes um ‘continuum’ do corpo ao espírito, da paixão ao Logos, agora é dois: corpo e mente, razão e loucura.

Transportada para os domínios da razão, a verdade passou a ser objeto epistemológico, não mais reencontro do ser. Portanto, nesse contexto, as ciências médicas se dividiram naturalmente em medicina do corpo e da mente. Os afetos, não podendo mais serem encaixados em nenhuma hipótese razoável, foram descartados como irracionais. Não pertencem ao objeto das ciências.

            Mesmo a loucura é tratada pela psiquiatria como uma doença da mente e do comportamento, sendo submetida a terapias de força, através de neurolépticos e dos ECT. Reduzida a seus componentes orgânicos, por um lado, ou a códigos de normalidade do comportamento, por outro, a subjetividade do paciente é achatada. Em cima dela, montões de outras subjetividades também achatadas, formando uma massa compacta e indiferenciada de pessoas que não pensam, não sentem, não falam. Contornando esta massa, as instituições se esquizofrenizam, se fortificam em torno de um real corpóreo e se fecham sobre o sujeito simbólico como em um sepulcro. Os manicômios são a face mais terrível de um racionalismo levado a seus limites extremos, onde razão e loucura confinam. Não se sabe ao certo onde uma começa e a outra acaba.

Já no final do século passado, Freud se deparou com esse ‘elefante branco’ da psiquiatria e da medicina. A ‘talking cure’ surgiu num momento comparável à perda da onipotência científica onde, abandonados os instrumentos do poder, Freud se dispôs a ouvir a histérica. Nesse momento a psicanálise instaurava uma nova técnica, um novo modelo de ciência, onde a relação entre médico e paciente era presidida por um 3º elemento: o Outro.

Este novo objeto, o inconsciente, marcava toda a diferença entre fazer uma interpretação médica e o ato analítico. E, no cerne dessa diferença, Freud aprendeu algo que iria se constituir como o motor de uma análise, o eixo ao redor do qual um saber ia se constituindo. Algo que a psicanálise vem anunciando como a maior força em ação no tratamento, seja das doenças ditas orgânicas ou as mentais, mas que, por outro lado, configura também uma das maiores dificuldades para o manejo da ´técnica’ analítica: a transferência, a cura pelo amor.

 

Citações:

1)    No princípio era o Amor, Julia Kristeva, pág. 13

2)    Texto de Conferência proferida por Pierre Fedida no Brasil, ainda inédito

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA


D´EPINAY, Michèle Lalive, “Groddeck, a doença como linguagem”, ed. Papirus, Campinas, 1988

OUCALT, Michel, “História da Sexualidade”, Graal Editora, Rio de Janeiro, 1984

PLATÃO, “Diálogos”, ed Tecnoprint S.A. Coleção Universidade

FEDIDA, Pierre, “O amor e a morte na transferência” texto inédito.

KRISTEVA, Julia, “No princípio era o Amor”, ed. Brasiliense, São Paulo, 1987.

 

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