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"Toda nudez será castigada"


Criado: 26 Junho 2018 | Atualizado: 26 Junho 2018
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Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura.
Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico. (Nelson Rodrigues)


1. O personagem Nelson Rodrigues

No ano do centenário de nascimento de Nelson Rodrigues, a evocação de uma de suas melhores peças teatrais, levada às telas do cinema pelos olhos sensíveis de Arnaldo Jabor, é uma tentativa de homenagem. Poderíamos escolher qualquer outro texto rodrigueano, peças, livros, crônicas, artigos de jornal, e encontraríamos uma mesma sintonia com a teoria psicanalítica. Para o conjunto de suas obras completas poderíamos parodiar o título de: A psicopatologia da vida cotidiana brasileira.

Marcado por exacerbada controvérsia, por uma polêmica apaixonada ou odienta, contraditório ao extremo, nosso maior dramaturgo e extraordinário jornalista nasceu em Recife, em 1912, falecendo de tuberculose, no Rio de Janeiro, em 1980, por insuficiência respiratória. Identificado até à alma com a boemia da Cidade Maravilhosa e com o povo carioca que via nele seu porta-voz, Nelson inaugura no Brasil a era de ouro do teatro, com temas candentes, escancarados e debochados, em que o personagem principal é a família de classe média brasileira, com toda a hipocrisia e nudez de sua falsa moralidade.

A tônica de seu teatro é a tragicomédia de costumes. Mesmo quando intencionou fazer comédia, foi trágico. Talvez tenha sido essa a principal herança ambivalente e contraditória de seus antepassados e de sua infância.

A começar pelo avô, Francisco Rodrigues, que legou à família um caderno de anotações sobre as mulheres que conquistou em vida, centenas, quase mil. Descrevia detalhes do corpo de cada uma, o formato dos seios etc, e quanto pagava. Por outro lado, foi um devotado religioso que leu a Bíblia inteira, citando versículos decorados e substituindo o pastor religioso nos púlpitos, com sermões veementes e assustadores, apesar da gagueira.

Seu pai, o jornalista Mário Rodrigues, vivia às turras e disputas com os políticos pernambucanos da época, criando inimigos figadais, tendo, em consequência, sido vítima de uma emboscada de uns cinquenta soldados que lhe dispararam uma centena de projéteis, em plena praça pública, dos quais escapou sem um arranhão.

Mário Rodrigues, diretor do Jornal Correio da Manhã, também foi processado por motivos políticos, depois de denunciar a doação de um colar valioso à esposa do então Presidente Epitácio Pessoa, pelos usineiros pernambucanos, sendo encarcerado durante doze meses, quando seu filho Nelson, ainda pequeno, passava em frente da cadeia, indagando por que o pai estava ali.

A saga ‘maldita’ de Nelson Rodrigues começou bem cedo, quando ainda era um anjinho de quatro anos de idade, usando camisinha de pagão, pelado da cintura para baixo. Em seu primeiro arroubo sexual, atravessou a rua em direção à casa vizinha, agarrou sua amiguinha de apenas três anos, beijando-a ardentemente. A mãe da menina, enfurecida com aquela pornografia, fez o caminho contrário para exigir da mãe de Nelson a proibição de ele botar os pés em sua casa. Prenúncio de sua futura tese de uma nudez castigada? Corria o ano de 1916, apenas onze anos após a publicação do clássico e escandaloso texto freudiano sobre a sexualidade infantil, que arrepiou os pelos de meio mundo.

Nelson evoluía rápido. Aos oito anos, participou de um concurso de redação na classe, cujo prêmio seria a leitura do texto para todos os alunos da escola. Descreveu uma história de adultério, em que o marido entra em casa à noite e surpreende a mulher na cama com um homem que foge pela janela. O marido mata a mulher com uma facada, ajoelha-se e pede perdão. Até parece o esboço de sua futura peça “Perdoa-me, por me traíres”. A professora, surpresa, leva a redação para a diretora que reúne todo o corpo docente, extasiado diante do texto, dando-lhe o prêmio de 1º lugar, mas proibindo e censurando a leitura para os alunos. O texto lido foi o de outro aluno que tirou o 2º lugar, com uma historinha boba de um rajá passeando de elefante.

Em contraposição, já nesta época, Nelson manifestava seus pendores religiosos, frequentando igrejas católicas, especialmente quando vazias, onde passava horas de meditação, e também não perdia um velório. E adorava cinema e futebol.

Aos 13 anos, leu Crime e Castigo, de Dostoievski, com o qual se identificava. Como o escritor russo, Nelson tinha o dom de criar tipos psicológicos característicos de nossa gente simples e sofrida, retratos nítidos das classes alta e média do Brasil. Seus escritos posteriores podem também ser cotejados com os de Sófocles, pela temática da tragédia clássica, com os de Shakespeare, pela dramaticidade mais moderna, com os do Marquês de Sade, pelas perversões e violências, com os de Freud, pelos conteúdos inconscientes, e com Fassbinder, pelo teatro e cinema dos porões do crime e da sexualidade mórbida.

A morbidez de seus textos, contudo, tem origem em sua atividade de repórter policial. Nas delegacias, que frequentou diuturnamente, colheu informações e presenciou fatos que lhe serviram de base para uma série de crônicas jornalísticas que ostentavam o título de A vida, como ela é, fonte e roteiro para suas histórias mirabolantes, fascinantes e fantásticas de tanto realismo. Durante algum tempo, usou um pseudônimo feminino, que atraiu muitas mulheres confidentes, com as quais espichava a conversa horas ao fio do telefone, aproveitando para colher cada vez mais informações, que renderiam mais folhetins.

Não é de admirar que, com tantos dados informativos, Nelson tenha se aventurado a escrever a primeira novela brasileira, para a TV Rio, com o sugestivo título de A morta sem espelho, contendo, para variar, incestos e adultérios, e sofrendo, logo de início, uma censura de mudança de horário para perto da meia-noite, quando todo mundo já dormia. Estávamos em 1963, e os militares viviam de olho em Nelson e em muitas outras cabeças pensantes subversivas. Afinal, era a véspera do fatídico ano de 1964!

E ninguém segurava mais a verve de Nelson Rodrigues. Os textos jorravam de sua máquina de escrever, obscurecidos pela mente conturbada, pelas cinzas e fumaça de seu inseparável cigarro.

E as tragédias familiares também não davam trégua. Em 1929, dentro da redação do jornal, Nelson assiste ao assassinato de seu irmão Roberto, artista plástico, chamado de ‘Rodolfo Valentin’, pela beleza e elegância. A autora do crime foi Sylvia Thibau, mulher da alta sociedade, que vinha sofrendo ataques em artigos escritos por Mário Rodrigues, que denegriam sua vida pessoal. Ela apresenta-se elegante e perfumada, solicitando conversar com o pai de Nelson. Informada de que ele estava ausente, pergunta por Mário Rodrigues Filho, também ausente. Então, ingenuamente, apresentam-lhe Roberto, escolhido, talvez, com segundas intenções. Mas, antes que a conversa começasse, ela saca da bolsa um revólver e executa o jovem, em lugar do pai. Anos depois, ela foi inocentada judicialmente, sob pretexto de ‘ato impensado’.

A perda do irmão foi lamentada por Nelson pelo resto da vida. Uma revolta incurável. Ao utilizar o teatro como expressão de seus próprios sentimentos, Nelson seguia toda a tradição catártica do teatro grego, ao mesmo tempo em que encenava sua própria biografia. Assim, por exemplo, na peça “Perdoa-me por me traíres” (1957), o próprio Nelson interpretou o papel do marido traído. Apresentada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, lotado todas as noites, continha perversões e depravações, uma cena de aborto (censurada), duas mesas ginecológicas e uma operação imaginária. É a história de um marido que, quanto mais traído, mais amava a mulher. Um dia, a adúltera se matou, induzida pelo marido a beber veneno. No velório, o viúvo berrava: ‘canalha!, canalha!’ As pessoas se horrorizavam com os impropérios supostamente dirigidos à defunta, mas ele estava acusando a si mesmo e pedindo perdão pela traição dela que levou àquela tragédia.

Em todos os seus textos, encontramos uma obsessão pelo sexo e pela morte, temas também recorrentes em Freud, base para a teoria psicanalítica das pulsões de vida e de morte. Quanto a outro conceito básico da psicanálise, o Complexo de Édipo, Nelson o aborda sempre pelo lado da transgressão, das relações incestuosas, explícitas ou subentendidas. Por exemplo, na comédia Os sete gatinhos (1958). Os gatos, em questão, são as sete pessoas que compõem a família. Não é só o biógrafo Ruy Castro que a classifica como a melhor peça de Nelson.

Aí se conta a história de uma família em que as quatro irmãs mais velhas se deixam prostituir pelo próprio pai, dentro do próprio lar, para garantir que a irmã caçula conservasse a pureza e se casasse virgem. A reação da mãe consistia em rabiscar palavrões nas paredes do banheiro. A mensagem é de que só as putas são conscientes do valor da virgindade. Ao final da peça, contudo, a caçula aparece grávida. Após demoradas investigações, descobre-se que o próprio pai a desvirginara.

Para Nelson, as putas são vocacionadas, fazem sua função por vocação, não por necessidade. Ele talvez estivesse aludindo ao refrão segundo o qual a prostituição é a mais antiga profissão. Assim é que, desde a suposta era do Matriarcado, numa sexualidade dissociada do prazer e da procriação, admitia-se que o sexo se divinizava, enquanto que os deuses se sexualizavam. Era a prostituição sagrada, em que as sacerdotizas desempenhavam o papel de iniciar os homens no amor, e de acalmar os guerreiros que voltavam cansados das batalhas, acolhendo-os em seus leitos, depois de tanto tempo longe de suas mulheres. As profissionais do ofício de prostitutas sagradas eram consideradas virgens, no sentido de uma entrega absoluta de seus corpos às divindades, através de um ritual de defloração nos templos dedicados às deusas do amor. Em O Banquete, Platão atribui esta função humanizante a Diotima.

Após a apresentação de ‘Os sete gatinhos’, alguns críticos voltaram a fazer estatísticas dos incestos, mortes violentas, suicídios, taras e lesbianismo nos textos de Nelson. Sua resposta, num programa de televisão, foi: ‘Minhas peças são obras morais. Deveriam ser encenadas na escola primária e nos seminários’.

Politicamente, Nelson era considerado, quase unanimemente, como reacionário e direitista, apesar de vestir, outras tantas vezes, a camisa de revolucionário, tendo sido chamado até de comunista, pelo conservador e turbulento jornalista Carlos de Lacerda.

Nelson foi amigo de Presidentes da República, durante a ditadura, e se aproveitava deste privilégio para interceder por seus amigos presos políticos. Em algumas ocasiões, comprometeu-se a se responsabilizar pela soltura de alguns deles. Sempre que privava com a autoridade suprema, perguntava se havia tortura no Brasil, recebendo sempre uma resposta negativa. Isso o levava a pensar, então, que as alegações de tortura feitas pela imprensa da esquerda eram falsas.

Entretanto, o destino preparou para Nelson mais um grande sofrimento. Seu filho Nelsinho engajou-se na militância da luta contra a ditadura e teve que viver na clandestinidade. O próprio Nelson passou a ser seguido e rastreado pelos militares, com o objetivo de descobrirem o esconderijo do filho. Isso o levou a evitar qualquer contato com Nelsinho. Nelson nunca deixou de apoiar a escolha política do filho, apesar do sofrimento que isto acarretou. Depois de ter ajudado tantos outros, Nelson acreditava comover as autoridades para proteger seu próprio filho, mas não conseguiu mais nada. Nelsinho foi duramente torturado, o que fez Nelson finalmente cair em si, decepcionado, quanto à prática da tortura no Brasil.

Se, do ponto de vista psicológico, era moralista e perverso, religioso e libertino, anjo e demônio, também, com relação à arte, cobria vasto espectro desde o que o público e a censura chamavam de pornografia, até à simpatia com o movimento expressionista, tendo ainda inovado cenários e técnicas de teatro nunca vistos. Gênio e/ou louco?

Numa lista de dez coisas que detestava, incluía a psicanálise, ao mesmo tempo em que fazia referências a Freud, pensava metapsicologicamente e recomendava a leitura do mestre vienense a seus amigos. Em sua peça-farsa ‘Viúva, porém honesta’ (1957), um dos personagens era um psicanalista, o Doutor Lupicínio, que tinha uma vitrola caça-níqueis no consultório, um taxímetro cobrando pelo silêncio, e que era incapaz de curar uma simples brotoeja. Outros personagens desta peça: madame Cri-cri, doutor Sanatório e Diabo da Fonseca, além de um crítico de teatro homossexual, e farpas aos políticos da época.

Destacam-se alguns entre os grandes amigos de Nelson: Dom Helder Câmara, arcebispo do Rio de Janeiro, o pintor Cândido Portinari, e os escritores Fernando Sabino, Pedro Bloch e Otto Lara Rezende. Estas amizades eram permeadas de brigas homéricas, seguidas de grandes abraços, como foi o caso de Lara Rezende, quando, surpreso, viu seu nome incluído na peça ‘Otto Lara Rezende ou Bonitinha, mas ordinária’. Ocorre que, além disso, no texto, repetia-se à exaustão uma suposta frase que Otto não se lembrava de ter dito, e que considerava uma invenção do Nelson: O mineiro só é solidário no câncer, frase que infernizou o resto da vida do escritor mineiro, que também nunca entendeu a relação de sua pessoa com a bonitinha ordinária. E Nelson se divertia...

Vai um destaque especial para dois grandes amigos, membros da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, Hélio Pellegrino e Eduardo Mascarenhas, famosos pelas críticas e polêmicas que levantaram, na época, sobre a própria instituição psicanalítica, especialmente pela denúncia pública ao médico e psicanalista Amílcar Lobo, que tinha participado e colaborado pessoalmente com as práticas de tortura na época da ditadura militar.

Hélio Pellegrino era um grande confidente de Nelson, em conversas ou visitas que duravam horas. Dedicou-se à publicação de uma interpretação psicanalítica do personagem e título da peça ‘Boca de ouro’ (1959). Ao lê-la, Nelson chamou Pellegrino de ‘o nosso Dante’. Também Eduardo Mascarenhas escreveu sobre a obra de Nelson, a quem chamou afetuosamente de ‘perverso polimorfo’, título freudiano que só divertia o dramaturgo.


2. O filme “Toda nudez será castigada”

Todo este preâmbulo serviu para entendermos melhor a encenação de “Toda nudez será castigada” (1965), levada às telas, com o mesmo título, por Arnaldo Jabor em 1972, um dos maiores sucessos de crítica e de público do Cinema Novo brasileiro. Mais de três milhões de espectadores quedaram boquiabertos diante de algo inédito nos palcos e nas telas. Só não foi aquela unanimidade, que Nelson chamava de burra, porque, segundo Jabor, sempre há os burros mesmo, no caso, os militares que, no terceiro mês de apoteose, depois que o General Bandeira assistiu ao filme e saiu enfurecido, invadiram as salas de cinema com metralhadoras e retiraram as bobinas das máquinas de projeção. Para completar, a imprensa era proibida de denunciar a censura. Isto é um indício de que tais produções tinham um cunho de protesto político também. Entretanto, paradoxalmente, o filme acabara de chegar ao Exterior, fez sucesso em catorze países, ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim, ao mesmo tempo em que o público brasileiro era privado de uma criação cultural desta magnitude. Ao receber o prêmio, rodeado pela imprensa internacional, Jabor denunciou o que se passava no país.

A grande surpresa, que impactava os telespectadores, é que encontravam ali a realidade de suas próprias vidas, nunca mostrada antes. O filme conta a história da família de Herculano, um viúvo rico que, por grande amor, respeito e fidelidade à falecida, jurou nunca mais se casar. Ensimesmado em seu luto, desistido da vida, provoca angústia nas demais pessoas da família que dependiam financeiramente dele. Surge , então, uma solidariedade interesseira para ajudar a levantar o astral do viúvo. Seu irmão, um boêmio vagabundo, frequentador da zona de prostituição do Mangue, organiza uma aproximação do Herculano com a prostituta Geni. Depois de muito relutar, ele resolve conhecê-la e apaixona-se por ela, o que conturba seu filho e outras três tias, entre escandalizadas, injuriadas, ciumentas, invejosas e desejantes. Aparentemente, contudo, era como se nada de novo estivesse acontecendo. O irmão continuava vendo televisão, as tias rezando terço e cuidando da casa, o filho de seus dezoito anos continuava como um bebezinho nas mãos das tias que o banhavam todo dia demoradamente.

Geni também se apaixona por Herculano. Este planeja então retirá-la do prostíbulo, exaltando suas qualidades humanas, ao mesmo tempo em que a chama de vulgar, mulher pública e prostituta. Ela retruca: eu sou uma santa! Como santa, ela exige casamento, ele a acomoda numa grande casa, mas não convive com ela devido às pressões familiares. Herculano condiciona o casamento ao afastamento do filho para o Exterior. Como este não aceita, fica tudo em suspenso, e Geni vive um tédio que a faz sentir saudade do Mangue. Serginho, filho de Herculano, envolve-se em briga num boteco e vai preso. Na cadeia é currado pelos companheiros de cela e vai parar num hospital. Geni sente pena dele e vai ajudá-lo. Os dois se apaixonam também. Serginho se orgulha de estar traindo o próprio pai nesta relação, vingando a traição que seu pai está cometendo contra a primeira mulher já falecida. Ele então resolve, finalmente, viajar para uma lua de mel, em companhia do preso que o estuprou, para desespero dela, que se suicida.

Em todos os relacionamentos mostrados neste filme, há um desencontro básico. Em outro lugar, Nelson afirmou: o sexo é a satisfação impossível. Ele está em sintonia com Freud, que dizia que o amor é discordante, e com Lacan, para quem não há relação sexual.

Um ponto alto desta peça é quando Geni exige que seu pretendente a amante se case com ela. Trata-se de um dado autobiográfico de Nelson. Aos 25 anos, ele trabalhava numa redação composta só de homens, com exceção da idosa secretária. Quando esta lhe confidenciou sobre a contratação da primeira mulher, Elza, jovem bonita de 19 anos, antes de vê-la, ele jurou: está no papo. Dirigiu-se à sala de trabalho dela e entabulou a conversa sedutora de sempre.
Depois de pouco tempo, Elza sai correndo aos gritos de: Comigo, só casando! E foi o que aconteceu. Ela foi o grande amor de sua vida e a mãe de seus filhos.

3. Conexão psicanalítica

Uma leitura psicanalítica do filme é prenhe de articulações, porque em Nelson Rodrigues o inconsciente jorra aos borbotões. Não por acaso, o enredo é um clássico do teatro. São histórias em que a mesma mulher transa com o marido e o filho (seu e/ou do marido), com foi o caso de Jocasta, no Édipo-Rei de Sófocles, em que também ocorre uma tentativa de filicídio e um parricídio concretizado . Ou como no Hamlet de Shakespeare, em que Gertrudes vai para a cama com o marido e, depois, com o irmão deste, num meio-incesto antecedido por um fratricídio e seguido pelo homicídio do tio Cláudio. Em Os irmãos Karamazov, de Dostoievski, também a amante Gruchenhka transa com Fiódor e o filho Mítia, com um parricídio, na sequência, cuja autoria se divide entre os quatro irmãos, de maneira indefinida.

A questão da nudez também é clássica. Depois que Édipo vence a Esfinge e se torna rei de Tebas, tem que esperar alguns dias sem poder ver sua nova esposa-mãe, confinada no quarto em que purga o luto pela morte de Laio. Impaciente e cansado de esperar, Édipo força a entrada nos aposentos da rainha e flagra sua nudez que o deslumbra. Freud, em viagem da família que se muda para Viena, aos quatro anos de idade, vê sua mãe inteiramente nua, e passa quarenta longos anos atormentado por essa experiência. Em carta a seu amigo Fliess, conta o episódio, mas em latim, para que outras pessoas não tivessem acesso ao grande segredo. Tal lembrança, provavelmente, o levou a escrever, em 1925, o belo texto sobre ‘Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos’.

Evidentemente, a nudez que interessa à psicanálise não é só a nudez física. E fica difícil definir se devemos falar do desejo de nudez, da nudez do desejo ou, melhor, das duas coisas. Retomando o título do filme em pauta, o pronome indefinido ‘toda’ caracteriza a proposição como universal afirmativa. Aplicando-lhe as regras da lógica aristotélica, temos que sua verdade ou falsidade será decorrente do fato de se tratar de uma matéria necessária ou contingente. Se nos referimos à nudez física, que é contingente, a verdade, segundo Aristóteles, só estará na proposição negativa dita contraditória, isto é: alguma nudez não será castigada, e poderá até ser glorificada, como no nu artístico ou sensual.
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Em se tratando da nudez do desejo, nudez entendida agora como o ‘desamparo’ que, segundo Freud, nos constitui a todos como humanos, então a matéria é necessária, e a verdade está na afirmativa universal, visto estarmos todos sujeitos à castração, exceção reservada somente para o Pai da horda primitiva, para confirmar a regra.

Com a primeira nudez, física, deparamo-nos no momento de nosso nascimento. Logo que atravessamos o canal vaginal, esta nudez vai revelar, desde logo, a que sexo biológico pertencemos, como herança da natureza. Num segundo nascimento, o nascimento do sujeito propriamente dito, com a aquisição da linguagem que desnuda as coisas, atravessando o desfiladeiro dos significantes, já agora na ordem da cultura, nos deparamos com a nudez de nosso desejo, marcado pela falta do objeto perdido, e pela nova escolha de gênero, pela qual definiremos nossa posição subjetiva do lado mulher ou do lado homem.

Então, o ponto central do filme em questão, como, aliás, de toda a produção de Nelson Rodrigues, e de toda a produção da humanidade, é esta aí: como nos havemos com nosso desejo, e qual é o preço a pagar por ele. Já que nosso desejo muitas vezes conflita com a ordem social, temos que decidir se vamos transgredir a lei ou obedecer a ela. E se a lei existe, é porque há desejos que precisam, culturalmente, ser reprimidos, em suposto benefício social. Se todas as peças de Nelson foram censuradas e/ou proibidas, é porque apontavam para lídimos desejos, inconfessados ou desautorizados. Mas a sofreguidão com que as multidões acorreram a estas peças, como o fazem até hoje, mostra, à saciedade, a pletora de desejos recalcados que anseiam por liberdade.

Mas, então. Todo desejo, ou toda nudez, tem que sofrer castigo? O que é o castigo? Para Nelson Rodrigues, a nudez consiste também em quebrar os convencionalismos, e tem seu alto preço.

No geral, o conceito de castigo carrega uma conotação religiosa e moralista, inclusive trágica, como na cultura grega clássica. A própria etimologia da palavra ‘tragédia’, que vem do grego ‘tragos’(bode), remete ao costume de enviar, para longe da cidade, um bode emissário ou expiatório, carregando os pecados do povo. À ideia de pecado original proposta pela religião, Freud opõe a noção de castração, no registro da estrutura e não da moral, decorrente de nossa finitude e de nosso desamparo.

Na cultura grega, são os caprichos dos deuses que traçam o destino dos humanos. E são deuses malvados que punem de morte a quem deseja. É por isso que, quando alguém faz uma escolha infeliz ou inadequada, é acusado de erro de julgamento, por não se ter sintonizado com os desejos dos deuses. E as grandes tragédias acabam com muito poucos sobreviventes.

Nas religiões também, em geral, há que seguir a vontade de Deus (seja feita vossa vontade, assim na terra como no céu). Desacatar a vontade divina leva ao castigo da doença, da morte, do inferno. E uma coisa de que Deus não gosta (na interpretação religiosa) é que as pessoas queiram ter prazer sexual ou, simplesmente, ter um mau pensamento correspondente.

A psicanálise teve o mérito de defender o princípio do prazer e desvincular a sexualidade de seu anterior objetivo maior da procriação. Mudou também o paradigma relacionado ao desejo, tanto do modelo religioso quanto da filosofia grega. Em vez de culpabilizar e castigar o desejo, considera que a única culpa que poderíamos ter é a de não seguir o próprio desejo. É uma nova ética que passa a nortear a economia do desejo. Podemos nos dar mal com a realização de nossos desejos? Isto pode acontecer, mas seria pior se não déssemos chance aos desejos, porque já estaríamos mortos.

Em vez de falar em castigo, a psicanálise prefere afirmar que somos donos de nosso destino, que somos responsáveis desde nossa condição de sujeitos, e que temos um preço a pagar por nossas escolhas, numa economia do desejo que também tem seus custos e benefícios.

Em vez do título apresentado: Toda nudez será castigada, poderíamos postular:
A condição humana (pela sua própria natureza) já foi castrada. É o que dizia Hélio Pellegrino: A condição humana não tem cura.

Conclusão

Além de muitos dados históricos retirados da competente biografia de Nelson Rodrigues, escrita por Ruy Castro, incluo aqui o depoimento do psicanalista João Batista Ferreira, a respeito das relações entre Nelson Rodrigues e Hélio Pellegrino. João Batista era vizinho de Hélio, ainda criança, em Belo Horizonte. Posteriormente, frequentaram o mesmo meio psicanalítico do Rio de Janeiro, e trabalharam em consultórios contíguos durante muitos anos. Encontravam-se todos os dias, e fizeram juntos algumas viagens ao Exterior. De suas confidências com Hélio, surge o relato que segue:

Nelson Rodrigues, mais que amigo, era compadre de Hélio Pellegrino. As conversas entre ambos eram adoráveis, falavam de tudo, onde literatura era o prato principal. Teologia e psicanálise, por ser Nelson “avesso” a ambos e Hélio apaixonado pelos dois temas, levavam as conversas pela noite afora, sem que nenhum ao final convertesse o outro.
Em 1969, vigente o feroz e famigerado AI5, Hélio Pellegrino foi preso pela truculenta Ditadura, acusado de comunista. No julgamento, foram peças importantes nos autos os artigos de Nelson Rodrigues, classificando o amigo de “psicanalista marxista” e de “jornalista comunista”.

Otto Lara Resende insistiu com Nelson para que comparecesse ao Tribunal Militar a fim de esclarecer aquelas “qualificações” a Hélio em suas colunas e crônicas. A princípio resistiu, mas depois acedeu, explicando aos militares que Hélio Pellegrino era um romântico, um poeta, que tudo aquilo que escrevia não passava de ficção e criação literária.
Absolvido, indo ao médico com Maria Urbana, sua mulher, encontrou-se com Nelson Rodrigues, caminhando à tardinha pela calçada do Leme, bairro do Rio de Janeiro. Abraçaram-se longamente. Olharam-se comovidos. Nelson pediu desculpas a Hélio, que lhe perguntou “por que”, e aproveitou para censurar o amigo por ter desmentido os artigos de jornal, pois, na verdade e com muita honra, “era marxista histórico e, às vezes, histérico”. A AMIZADE DE AMBOS NUNCA FOI ABALADA.


Referências Bibliográficas

Castro, Ruy. O Anjo Pornográfico. São Paulo, Companhia Das Letras, 2010.
Freud, Sigmund. Extratos dos documentos dirigidos a Fliess. E.S.B., vol. I, Rio de Janeiro, Imago, 1977.
Freud, Sigmund. A interpretação de sonhos. E.S.B., vol. IV, Rio de Janeiro, Imago, 1972.
Freud, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade E.S.B., vol. VII, Rio de Janeiro, Imago, 1972.
Freud, Sigmund. Totem e tabu. E.S.B., vol. XIII, Rio de Janeiro, Imago, 1974.
Freud, Sigmund. Além do princípio do prazer. E.S.B., vol. XVIII, Rio de Janeiro, Imago, 1976.
Lacan, Jacques. Télévision. Paris, Seuil, 1974.
Sófocles. Rei Édipo. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1970.

Referências fílmicas

Jabor, Arnaldo. Toda Nudez Será Castigada. Brasil, 1972.
Jabor, Arnaldo. Extras. Depoimento de Arnaldo Jabor. Brasil, 1972.

Sobre o autor:

Geraldino Alves Ferreira Netto – psicanalista
Autor de “Wim Wenders, Psicanálise e Cinema”, Editora Unimarco, SP, 2001.
Autor de “Doze lições sobre Freud e Lacan”, Ed Pontes, Campinas, S.P., 2010.
Coordenador do Curso de pós-graduação lato sensu, “Psicanálise na cultura”, em Campinas, em parceria com a Faculdade Vicentina, de Curitiba.
www.psicanaliseemcurso.com.br


Este artigo foi publicado na Coleção Cinema e Psicanálise pela nVersos, SP, em 2013.


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