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Setembro
2019
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AS 'POLÍTICAS' DA PSICANÁLISE

AS 'POLÍTICAS' DA PSICANÁLISE


Criado: 24 Setembro 2019 | Atualizado: 25 Setembro 2019
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Homenagem aos 80 anos da morte de Freud (23-09-1939)
Por Geraldino Alves Ferreira Netto

O conceito de política adotado por Freud e aprofundado por Lacan não deve, a meu ver, incluir a ambiguidade de uma política partidária.

Sendo assim, quando o psicanalista apregoa publicamente, em nome da Psicanálise, o apoio ou repúdio a um determinado candidato ou partido político, temos configurada uma política partidária, já que nenhum candidato está desvinculado de um partido político, por exigência da Legislação Brasileira.

É evidente que todo psicanalista, na qualidade de cidadão, pode e deve participar da política, para cooperar no intuito de traçar os rumos que deseja para sua pátria. Contudo, apoiar qualquer partido é colocar-se a serviço do discurso do poder, dos ricos, dos poderosos políticos de profissão, que não costumam representar os desejos e anseios de seus eleitores. Nesta perspectiva, tal atuação em direção ao discurso do poder é uma incongruência com o discurso do psicanalista, é seu avesso.

Um partido político tem este nome justamente por supor representar uma parte da população, com exclusão das demais partes. É uma luta narcísica pelo poder, excludente e discriminatória, que fomenta o ódio e a desunião entre as pessoas, quando o propósito da Psicanálise é oferecer uma escuta a todos os seres falantes, sem exceção de raça, cor, religião, ideologia, política, escolha sexual ou projeto de vida. Portanto, a Psicanálise não incentiva grupos partidos por qualquer visão de mundo, pelo simples fato de respeitar as escolhas em sua totalidade. Usar seu nome para fatiar as pessoas é apequenar e comprometer sua missão de subversão do sujeito diante dos discursos de poder, criando escravos que alienam seus desejos a um ideal de eu de um líder pai da horda.

Nenhum psicanalista desconhece a ênfase com que Freud defende que o Inconsciente desconhece espaços como esquerda, direita, centro, e também, mais importante, que não faz juízos de valor ou morais, sendo amoral, aceitando as decisões e escolhas que cada pessoa julga mais consentâneas com seu desejo. Esta ausência de julgamento é colocada por Freud como tolerância zero, embora reconhecendo a dificuldade de sua prática, em que ele mesmo confessou ter deslizado algumas vezes.

Este é o conceito de política psicanalítica para Freud, na qual nenhum psicanalista tem o foro privilegiado para julgar-se superior aos demais cidadãos a ponto de induzi-los, em nome da Psicanálise, a seguir suas orientações inquestionáveis de oráculos do bem. Isto corresponde a passar aos eleitores um atestado de incompetência, de não saberem escolher, quando a própria Constituição Brasileira assegura a todos o direito de escolha livre e secreta dos candidatos, condenando, em várias situações, qualquer arremedo de “compra de votos” com algum tipo de coação.

A política psicanalítica para Lacan, descrita no texto ‘A direção do tratamento’ (Escritos, pág, 596) propõe que a política é a ação do analista em que ele tem o mínimo de liberdade (diferente da tática da interpretação e diferente da estratégia da transferência), e “onde ele faria melhor situando-se em sua falta-a-ser do que em seu ser”.

Recente preciosa publicação de Ricardo Goldenberg (Desler Lacan, 2018, pág. 322) discorre sobre as posições políticas de Freud e Lacan. O primeiro, acusado de ficar em cima do muro, deixou claro que não apoiava nem o fascismo nem o socialismo, não mantendo identidade partidária. Lacan chamou esta postura freudiana de “agnosticismo político de Freud”, nem crente, nem incrente, agnóstico.

Quanto à posição do próprio Lacan, Goldenberg afirma que “em 1960, joga uma pedra tanto na vidraça dos intelectuais de esquerda, tachados de ‘fools’, no sentido de bitolados, quanto nos de direita, qualificados de ‘knaves’, canalhas”. Ele não se alinhava nem à esquerda, nem à direita (pág. 326).

Na lição de 20 de março de 1963, Cap. XIV do Seminário 10, (pág. 209), falando da angústia que a política causa em todos nós, e citando os jornais, diz Lacan: Na política, a esquerda, na verdade, é sempre teleguiada pela direita. Aliás, é assim mesmo que se pode estabelecer uma relação estreitamente paritária entre essas duas facções.

Em seu texto Televisão (1974), Lacan enfatiza a Ética da Psicanálise, dizendo que não há ética senão do Bem-dizer (pág. 44), e que O Bem-dizer não diz onde está o Bem (pág. 40).

Conclusão

Ser agnóstico, em Psicanálise, é defender um não-saber, onde somente é possível encontrar a verdade.

Campinas, Primavera de 2019//


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Geraldino Alves F.


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