04
Abril
2015
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O CAVALO DE TROIA

O CAVALO DE TROIA


Criado: 04 Abril 2015 | Atualizado: 04 Abril 2015
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João Batista Ferreira
Membro do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro
Jb.lembi@gmail.com

Lembrando Kattrin Kemper e a menina de seus olhos, a Clínica Social de Psicanálise.

“Eu não gosto de vento. Ele faz muito barulho!”

Anna tinha oito anos e assim se apresentou, quando foi levada à Clínica pelos pais. Não sabiam o que mais fazer para que a filha menor conseguisse dormir. Tornara-se depressiva, onde a recusa por atividades lúdicas, recreativas ou sociais se justificava pela expressão vaga “tenho medo”. Inteligente, perspicaz, criativa, começava a desgostar da escola, inventando motivos vários para não ir às aulas. De sociável foi se tornando antissocial. Ficou apática.

“Ela era ótima”- disse a mãe - “agora começou a esboçar medo para tudo, o que aumenta muito na hora de dormir. Não há o que a faça conciliar o sono. Arregala os olhos e se mete em nossa cama. Diz que é por causa do vento. Apaga de exaustão”.

O pai tentou justificar o medo, explicando que “moram a uma quadra da praia, e que Anna se impressiona muito com o barulho do mar”.

A anamnese se fez fácil pela alta qualificação dos pais. Teria sido modelar não fosse a observação, já ao final da entrevista, de que, na impossibilidade de gerarem filhos, as duas meninas tinham sido adotadas, logo após o nascimento, “dentro do mais rigoroso critério técnico”. Por uma questão de princípio, nunca lhes falaram a respeito e jamais revelaram isso a alguém. A mãe adiantou que as duas meninas “não desconfiavam de nada”, acrescentando que eles, os pais, “nunca tiveram coragem de mencionar o fato”.

O analista propôs, então, um novo encontro para que pudessem conversar sobre a adoção de Anna, no que houve assentimento de ambos, embora o pai, em discordância com a mãe, não visse muita relação da adoção com os sintomas da filha. “Afinal, até recentemente, ela não tinha apresentado problema algum. Isso é muito novo em Anna”.

O segundo encontro com os pais se fez tenso, ensejando o afloramento de uma série de ressentimentos mútuos do casal, tendo sido difícil chamá-los para o propósito daquela sessão. Por que não falar da adoção e a possível ligação do sofrimento de Anna com o mistério de sua origem “guardado no fundo do baú”? O resultado final foi um consenso, no sentido de a adoção dever ser abordada, apesar do desconcerto, pois confessavam finalmente que a “coisa não era tão tranquila assim”, não sabendo eles como e quando iriam “conseguir revelar o tão guardado segredo”.

Praxe na época, os dois foram encaminhados para um profissional, especialista em orientação de pais. Anna faria uma série de sessões livres com a finalidade de ser melhor avaliada e poder, ela, aceitar a “ajuda para o medo”, como lhe diziam em casa. Iniciar-se-ia, caso positivo, um atendimento ludoterápico.
Aconselhou-se um acompanhamento para a irmã mais velha, Karla, pois a angústia manifestada no sintoma da mais nova existia nela também, de alguma forma. O pai, ensaiando uma graça, ressaltou mais uma vez que ambas eram ótimas, “presentes da vida”, esperando que Anna não se revelasse “um presente de grego”.
Havia ali, no entanto, alguma coisa parecida com o que Winnicott fala a respeito da boa maternagem, “aquela que além de necessária é também suficiente por saber operar a frustração e proporcionar a satisfação” .

No segundo canto da Eneida, Virgílio descreve a queda de Troia, dizendo que às suas portas foi posto um gigantesco cavalo, em cujo ventre se escondiam valentes, perigosos e bem-armados soldados. As opiniões sobre o engenho divergiam entre jogá-lo ao mar e trazê-lo para dentro das inexpugnáveis muralhas. O troiano Lacoonte bradou para o povo, advertindo-os: “Temo os gregos mesmo quando oferecem presentes”. E, tomando nas vigorosas mãos a lança, arremessou-a de encontro ao ventre arredondado do animal. “A arma cravou-se, tremendo, sacudindo o bojo, cujas cavidades retumbaram exalando um gemido”. Mas ninguém se deu ou quis se dar conta do fato. À noite, a cidade caiu. Esse foi o fim trágico de Troia .

Anna fez as sessões livres sem muita participação. Ar depressivo, mostrou-se pouco curiosa com o generoso e original espaço da Clínica. Obedeceu ao pedido de desenhar uma casa, uma árvore e duas pessoas humanas, uma de cada sexo. Foi monossilábica para fazer histórias a respeito de seus desenhos e, quando iniciava alguma atividade lúdica, abandonava-a, logo após. No entanto, aceitou comparecer à Clínica, duas vezes por semana, pela manhã, pois estudava à tarde. Perguntou se ali “ventava” e foi-lhe dito que sim, mas que “dentro da gente só ventaria se a gente quisesse”.

A Clínica Social de Psicanálise, em Copacabana, Rio de Janeiro, resistia bravamente à “canibalística” voracidade imobiliária, ávida por construir mais uma agulha de pedra. Lugar sui generis, muito significou no campo da prática psicanalítica, nos sombrios anos de chumbo da ditadura. Chamava a atenção, também, pelo espaço geográfico. Era uma casa sólida, cercada por uma muralha de edifícios, com enorme terreno, onde havia convidativo gramado. Ali se podia jogar bola e fazer piquenique. Pontilhado por bananeiras, goiabeiras, mangueiras e bela amendoeira, todas elas férteis e fecundas, lá voejavam pássaros de vários tipos, musicando e colorindo o espaço. O consultório infantil era em madeira, todo ele montado para a atividade lúdica. Abria-se para esse recanto, com suas portas e janelas azuis, contrastando com as paredes brancas, transformando o lugar em uma grande “casinha de brinquedo”. Não faltavam críticas a esse inusitado setting, heterodoxo e sedutor, longe do modelo tradicional, asséptico e neutro, mas foi assim que funcionou por vinte anos, ensejando discussões dentro do movimento psicanalítico. Neste cenário, Anna ficou por três anos, dos oito aos onze.

Vale lembrar Winnicott .

Kattrin Kemper, “grande alma”, extraordinária figura humana, uma das pioneiras da ludoterapia no Brasil, supervisionou o “caso Anna”, pelo viés kleiniano, mas com total independência na coleta da transferência e no uso da interpretação. Apostava numa “técnica adaptativa” que ela chamava de “inscrição no real”. Conservou uma tendência a privilegiar, como Klein, a teoria do objeto mais que a teoria das pulsões, atenta ao fato de os primeiros conflitos infantis derivarem da oposição inata e fundamental entre a pulsão de vida e a pulsão de morte. Ora, se a toda pulsão lhe corresponde o fantasma de um objeto capaz de satisfazê-la, sobre este objeto se projetará a dualidade das pulsões, nele desaguando as libidinais (vida) e as de destruição (morte). Para que tudo isso aflore é preciso ter paciência e perspicácia, atento ao paciente, pois “o neurótico interpreta sua neurose”, como alude Freud, ao longo de sua obra.

Anna manifestava essa dualidade, tendo feito uma trajetória até oito anos, sob a prevalência das pulsões libidinais. Seus “medos estavam no fundo do mar”, como, a despeito de um sofrido sonho, ficou patente num belo desenho que fez para explicar o pesadelo. Mas a proximidade da pré-adolescência soprou mais forte e incrementou esses medos, bordejou o mistério da sua origem, com a emergência da pulsão de destruição. “O medo veio para a superfície do mar”, como lhe foi dito. Atrás desse processo existia, certamente, um forte componente de culpa.

O objeto de que nos fala a teoria kleiniana é um objeto fantasiado, o que sustenta a realidade, realidade externa e realidade interna. Esse seria o espaço por excelência para a ação psicanalítica, sem a tentação do procedimento pedagógico, mas com a espera paciente e atenta do momento fulgurante de a criança poder manifestar todas as suas potencialidades de expressão, nomeando, então, seus fantasmas.

Aqui, nada melhor que o brinquedo como veículo de expressão, à semelhança da associação livre no processo de análise do adulto. De fato, o “brinquedo sonoro” e o “desenho animado” tornam a linguagem muda em um veículo por excelência da manifestação do inconsciente que, aliás, na criança, sopra à flor da pele. Além disso, do ponto de vista analítico, o valor desses jogos está em seu método direto de representação e, consequentemente, na maior riqueza de associações verbais que suscitam. O importante é que a criança tire partido, no curso do tratamento, de todos os recursos de linguagem à sua disposição.

Era preciso deixar Anna se expressar, visando possibilitar uma diminuição do sentimento de culpa e maior capacidade de reparação. “O medo na superfície pode ser controlado”.

O estabelecimento do amor idealizado advém dessa reparação e da incorporação do objeto sádico, sentido como temor de destruição, por um lado, e como desoladora ausência, por outro. Mitiga-se com o amor, o ódio. Prevalece a pulsão de vida. É a vitória de Eros.

Aos poucos, foi ela entrando no processo da transferência e tomando a iniciativa de “montar a sessão”. Começou a interagir com aquele cenário exuberante. Uma de suas sessões se fez em cima de uma goiabeira, antes alvo de seus ataques, pois tinha especial prazer em lhe arrancar as goiabas verdes, jogando-as ao chão para pisá-las. Certa vez, em uma dessas investidas, pareceu alucinar, tal a raiva com que destruía os frutos. Disfarçou não dar ouvidos ao comentário: “Anna está com ódio das coisas ruins, por isso as ataca!”, mas nesse dia, apanhou goiabas maduras para “fazer uma surpresa à mamãe”. Kattrin Kemper comentou rindo, na supervisão: “É a reconciliação com o seio bom. A fase depressiva está chegando ao fim...”.

A hora das duas sessões era a primeira da manhã, o dia começando. Visitava as plantas. Interessava-se pelos pássaros que pulavam de galho em galho, dando-lhes nomes, gritando-lhes: “Hora do café!”. E foi assim que descobriu um ninho de rolinhas, com dois ovinhos, em uma esbelta bananeira, meio vergada pelo peso de enorme cacho de banana-prata. Essa descoberta, fator aleatório por excelência, foi marcante no processo de Anna, decorridos dois anos de análise. As sessões começavam ao pé da bananeira, com a visita ao ninho, para continuar depois, no consultório.

Não raro, ao final da sessão, havia uma despedida, com aceno de mão para a zelosa mãe imóvel, chocando os filhotes.

No espaço externo da clínica, havia um quadro-negro e sob a amendoeira uma mesa de ferro. Esse cantinho logo se transformou em uma sala de aula, onde severa professora (Anna) ensinava as primeiras letras e os primeiros números a um aluno “burro” (analista), cujos exercícios estavam sempre errados, merecendo-lhe as notas mínimas. Anna não dispensava a régua para castigos corporais, pois batia na mão do aluno todas as vezes que as letras ou números não estivessem perfeitos. E para ela, nunca estavam... Anna se transformava, no seu ofício de ensinar. Era outra pessoa, falante, “séria como gente grande”, onde o castigo e a punição eram aplicados com todo o rigor. Esse momento lhe dava especial prazer.

Não se fez grande espera para o uso da interpretação. “Pode e deve ser usada desde o início”, escreve Melanie Klein, “isto não contradiz a regra aprovada de que o analista deve esperar que a transferência se efetue antes de começar a interpretar, porque nas crianças ela acontece imediatamente, e o analista muitas vezes terá provas imediatas de sua natureza positiva. Deve ser conduzida a uma profundidade suficiente para atingir a camada psíquica que está sendo ativada” .

As primeiras interpretações surgiram na brincadeira de escola. Se fosse assistida por algum estranho, seria difícil ver ali, apesar da diferença das figuras, um passatempo de professora-aluno. A peculiaridade do “jogo” repousava justamente no papel de o aluno-burro-analista poder dizer alguma coisa que a professora-severa-analisante ouvia com as mãos na cintura, a régua abaixada, olhos fixos e atentos, para não perder nada, esperando a “deixa” para retomar a aula. Foi assim que em cima de uma das repreensões, “preste atenção menino-cabeça-de-vento”, surgiu a primeira interpretação produtiva: “cabeça-de-vento ou vento-da-cabeça, aquele vento que a cabeça da gente inventa para esconder as coisas ruins”. Anna quis saber melhor o que, algumas vezes, já tinha ouvido de formas diferentes, mas na mesma direção. “Como é isso de vento que a cabeça da gente inventa?”.

Havia no sintoma do medo do vento algo de muito mais profundo que levava Anna a não querer sair de casa, a correr, à noite, para a cama dos pais. “Lá estava o medo de ser abandonada, devorada por tubarões, ser jogada longe, para o fundo do baú” e levada para o “lugar nenhum”, como certa vez, ao longo da análise, chegou a verbalizar. Ficava atentíssima quando o analista lhe dizia que a ida para a cama dos pais era um desafio a si mesma para saber se aquela mãe será a mãe-boa ou a mãe-má. A angústia repousava na dúvida sobre qual mãe era a sua, a mãe-má, capaz de levá-la para longe na força arrasadora das ondas, ou a mãe-boa, necessária e suficiente na forma de continente e provedora? Isso não revelava fraqueza, ao contrário, era prova de muita coragem...

Amor e ódio se revezavam. O analista serviu de suporte suficientemente forte para entender seu medo e suportar seus ataques mortíferos, retornando a ela como prova de que sua agressividade não era tão destrutiva assim e nem levava, tão pouco, à morte. O mesmo acontecia com os joguinhos de perde ou ganha, onde Anna aos poucos deixou de burlar as regras, trapacear, ou pedir para vencer aceitando, quando acontecia, perder o jogo. Tornou-se ele uma figura importante e confiável, inclusive como pessoa real, figura poderosa, objeto de identificação narcísica, hipostasiada de pai, contra quem podia rebelar-se Anna e a quem, por vezes, podia admirar. Quando crescesse, “seria médica ou analista”.

O conflito intrapsíquico estava, dessa forma, sendo reintroduzido na estrutura, aceitando a analisante suas desarmonias internas, o que Anna Freud, em seu livro O ego e os mecanismos de defesa, chamou de divisão imaginária da posição subjetiva” .

A interpretação, a partir dessa posição nova, adquire uma eficácia maior pela acolhida que o analisante lhe dá. Na relação transferencial não havia dúvida de que ela tinha seu lugar, sua vez e sua voz, portanto, com sua força e fraqueza, presença legitimada e não “presente de grego”, como brincou o pai.

A angústia de Anna diminuiu muito, retomando o gosto pelo colégio, onde tinha participação ativa em jogos associativos e o mesmo anterior interesse no aprendizado. A ida para a cama dos pais apresentou significativa alteração. Achava graça quando a interpretação “dessas visitas” aludia à vontade de controlar a sexualidade dos mesmos. Quase sempre, à noite, era suficiente que um deles ficasse no quarto de Anna, contando-lhe histórias, até que adormecesse. Uma dessas, contada pela mãe, foi reproduzida em um desenho de um cãozinho que, abandonado, foi criado por uma menina que gostou muito dele e o levou para casa.
“Embora os pais, ou substitutos, sejam frequentemente um fator agravante no caso da criança mal-ajustada, e ainda que possa a terapia prosseguir mais rapidamente se os adultos receberem também alguma ajuda terapêutica ou aconselhamento, não é necessário que isso aconteça para assegurar o sucesso da ludoterapia” é o que diz Virginia Mae Axline, eu seu livro A dinâmica interior da criança .

Kattrin Kemper era mais radical, nesse particular, apostando no “elemento surpresa” que o atendimento aos pais e à família pudesse produzir no processo de “cura da doença”, resultado também do coletivo e não só do individual. “Na neurose, estão todos comprometidos. Ela é coletiva”, não se cansava de repetir.
A orientação dos pais foi fundamental para que pudessem devotar a Anna um olhar de aprovação e consentimento, entendendo eles a miopia e surdez em relação à questão da adoção. Não obstante, não viam nenhuma oportunidade feliz para introduzir a resposta à pergunta, desde todo o sempre no ar, cujo conteúdo as meninas difusamente captavam. Por outro lado, essa questão deixava, aos poucos, de ser um terrível tabu. O mesmo se deu com a irmã mais velha que polarizou a terapia de apoio para administrar sua entrada na adolescência, abrindo-se com toda a tranquilidade para a notícia da adoção que aconteceria um pouco mais tarde, através do que Anna pôde contar em casa sobre as rolinhas.

Na teoria kleiniana a interpretação, analogicamente, se compara ao cavalo de Troia.
Escreve a psicanalista austríaca, em seu livro Psicanálise da criança: “O procedimento analítico consiste em selecionar os aspectos mais urgentes do material e interpretá-los com precisão. As reações do paciente e as associações subsequentes constituem um novo material que, por sua vez, deve ser analisado seguindo os mesmos princípios. Se interpretarmos devida e repetidamente o material à medida que este aparece nos diversos contextos, somente assim poderemos ajudar o paciente a adquirir uma visão de si mesmo” .

Em toda analogia salvam-se alguns analogados, ou seja, na comparação alguns aspectos são visados e não todos os pormenores do paralelismo. Por que aspecto seria a interpretação o cavalo de Troia? Por ter ele atravessado as inexpugnáveis muralhas e adentrado a cidade ou por ter a lança de Lacoonte tocado o secreto e o perigoso segredo, fazendo ecoar a palavra? A interpretação pretende provocar, em sua forma profunda, a palavra iluminante no âmago da bem definida fortaleza do inconsciente. “A lança crava-se, tremendo, sacudindo o bojo, cujas cavidades retumbam exalando um gemido”. O fundamental, no processo do tratamento, é a compreensão desse gemido e seu efeito de significação. O cavalo de madeira está sempre à nossa porta. Frequentemente, a lança atinge seu ventre, produzindo um som que nem sempre ouvimos ou nem sempre queremos ouvir.

A análise de Anna estava no final de seu segundo ano. Desenhou o fundo do mar, cheio de tubarões, e a superfície com peixinhos coloridos e barquinhos a vela. Ela ocupava um deles com peixes coloridos à volta. Disse que tinha sonhado isso e que acordou do sonho porque “era um pesadelo, mas já sei que você vai falar que os tubarões são meu pai e minha mãe”... Pouco mais lhe era preciso dizer. Fugindo ao hábito, levou o desenho para casa.

Era o mês de dezembro e o Rio foi castigado, na madrugada, por um vendaval. Amanheceu cinzento e frio, em plena estação de verão. Anna chegou e teve um choque, correu para a bananeira e começou a chorar. O vento a derrubara. No chão, dois filhotinhos, poucas horas saídos dos ovos, molhados e com formigas à volta. Os pais sumiram. Não se viam pássaros por perto. A sessão se fez ali mesmo. Os filhotes tinham que se livrar das formigas e serem devolvidos ao ninho. Foi comovente assistir ao desvelo de Anna, limpando os recém-nascidos, a mãe com seus filhos, com apurado cuidado. Mas como recolocá-los no berço? A bananeira no chão, o ninho por terra... Com a ajuda do porteiro, foi ela erguida e escorada para não tombar de novo. O ninho foi, carinhosamente, ajeitado para receber de volta, das mãos de Anna, os filhotes que ali ficaram encolhidos, tristes, abandonados, parecendo mortos.

Era preciso contar com a sorte. Encontrariam os pais seus filhotes? Onde estaria a “mãe-barriga”, a mãe que os gerara? Ou apareceria uma “mãe-coração”, a mãe adotiva para criá-los? Da janela, Anna, os olhos marejados, aguardava o milagre em pesado silêncio. A sessão foi mais longa do que de costume, mas brindada, de repente, como o sorriso ensolarado de Anna contrastando com aquela manhã fechada de dezembro: os pássaros foram reaparecendo, cessada a chuvinha fina que caía, e uma rolinha rondou a bananeira escorada, piou algumas vezes, foi e voltou outras tantas, até que pousou no ninho.

O analista não duvidou: “Os pais não puderam voltar, mas outros, com todo amor, adotaram Anna e Karla”.

Anna ficou parada, tranquila e serena. Não assentiu nem protestou. Era a verdade! Olhou o ninho, procurou qualquer coisa no chão, apoiou-se na janela e pareceu conhecer essa história, como a história da menina e o cãozinho abandonado que a mãe lhe contava.
Em casa, Anna, à hora do jantar, contou em pormenores a saga dos pássaros. E foi então que ouviu os pais lhe dizerem, com rara felicidade, que uma coisa parecida tinha acontecido com ela e a irmã.

Os filhotes sobreviveram ao vento e ela lhes acompanhou o desenvolvimento até que voaram do ninho. Sempre que via rolinhas, dizia reconhecer ora os pais, ora Anna e Karla, voando na amendoeira.

“O ego não se defende unicamente contra a dor oriunda de dentro. No mesmo e remoto período em que trava conhecimento com os perigosos estímulos pulsionais internos, experimenta igualmente a dor que tem sua origem no mundo externo. O ego está em íntimo contato com esse mundo, do qual aufere seus objetos de amor e deriva aquelas impressões que são registradas pela percepção e assimiladas pela inteligência. Quanto maior for a importância do mundo exterior como fonte de prazer e interesse, maiores são as oportunidades para experimentar a dor oriunda desse setor. O ego de uma criança de tenra idade vive ainda de acordo com o princípio do prazer; muito tempo decorrerá até que esteja treinado a suportar a dor. Durante esse período, o indivíduo é ainda muito débil para opor-se ativamente ao mundo exterior, para defender-se dele ou modificá-lo” .

Atípico no setting, atípico nas circunstâncias, ajudado por fator aleatório e extraordinária capacidade de Anna para insights, o caso foi chegando ao fim. Fortalecida em seu mundo interno, reconciliada em suas pulsões, foi se tornando capaz de interagir com o mundo externo de forma produtiva e prazerosa. Contou-se com a colaboração da família que sacudida, mais tarde, por ventanias, não conseguiu desestruturar Anna.

“Uma análise termina quando analista e paciente deixam de encontrar-se para a sessão analítica. Isso acontece quando duas condições foram aproximadamente preenchidas: em primeiro lugar, que o paciente não mais esteja sofrendo de seus sintomas e tenha superado suas ansiedades e inibições; em segundo, que o analista julgue que foi tornado consciente tanto material reprimido, que foi explicada tanta coisa ininteligível, que foram vencidas tantas resistências internas, que não há necessidade de temer uma repetição do processo patológico em apreço” .

Sem fazer da citação o escopo de todo processo analítico é, no entanto, sem dogmatismo, um referencial de primeira grandeza. Ouviu-se o gemido do bojo do cavalo, que não atravessou as muralhas para destruir a cidade, pois o engenho foi jogado ao mar. Por que culpa, se não havia crime? Afinal, se é a gente que cria o vento da cabeça, pode-se tê-lo para enfunar as velas e não para derrubar bananeiras e seus ninhos. E mais, se a mãe-barriga não pôde cuidar dos filhos, a mãe-coração o fez, e eles puderam um dia voar.

Um ano mais tarde, já bem entrado o ano de 1978, terminava o processo de Anna, que já tinha completado seus onze anos.


Este texto foi originalmente publicado na Revista “Psicanálise Pulsional”,
Ano XII, número 126, outubro 1999.

1. D.W. Winnicott. The Maturational Processes and the Facilitating Environment. London, The Hogarth Press, 1976.
2. Maronis, Virgilius, Aeneidos, Paris, Les Belles-Lettres, 1948, Liber II, vs. 49, 52 et 53
“(...) timeo Danaos et dona ferentes”.
“(...) Stetit illa tremens, uteroque recusso”.
“ Insonuere cavae gemitumque dedere cavernae”.
3. D. Winnicott. “Le concept d’individu sain”, Revue L’ARC, nº 69, Paris, 1977.
“Dans le cadre analytique, la problématique dedans-dehors est essentielle. Le cabinet analytique est un espace ambigu. Par rapport à la rue – le monde exterieur d’où vient le patient -, il est un ‘dedans’. Mais dans la séance, pour l’analysant, ll est un ‘dehors’. A son tour, l’analyste fait partie du cadre et en est distinct. Le cadre le répresente, témoigne de ses choix, de ses goûts, fût-il le plus neutre possible – et cependant l’analyste reste à part. L’espace interanalytique est le lieu de la création de l’objet analytique, à la recontre des réalités psychiques de l’analysant et de l’analyste”.
4. M. Klein. Psicanálise da criança. São Paulo, Mestre Jou, 1969.
5. A. Freud. O ego e os mecanismos de defesa. Rio de Janeiro, B.U.P., 1968.
6. V. M. Axline. A dinâmica interior da criança, ludoterapia. Belo Horizonte, Interlivros, 1978.
7. M. Klein. Op. cit.
8. A. Freud. Op. cit.
9. S. Freud. “Análise terminável e interminável”. E.S.B., vol. XXIII. Rio de Janeiro, Imago, 1969.



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