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Julho
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Lavoura Arcaica, uma visão de mundo atormentada e trágica

Lavoura Arcaica, uma visão de mundo atormentada e trágica


Criado: 25 Julho 2016 | Atualizado: 25 Julho 2016
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Por Geraldino Alves Ferreira Netto - Psicanalista
Grupo de estudos ‘Cinema e psicanálise’

Filme: LavourArcaica

Um filme de Luiz Fernando Carvalho
da obra de Raduan Nassar (Selton Mello, Raul Cortez, Juliana Carneiro, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros, Caio Blat).
A primeira obra-prima do cinema brasileiro do século 21 – Agosto de 2007 – 50 prêmios nacionais e internacionais.

INTRODUÇÃO

O livro de Raduan, Lavoura Arcaica, único que ele escreveu, pode ser considerado romance, teatro, poesia, parábola, novela, e assume um estilo impressionista, caracterizado pelo lirismo, com impressões fugazes, mobilidade dos fenômenos (o céu, as águas, a folhagem, as estações, a natureza). Na pintura, Monet é um representante do Impressionismo, com o quadro ‘O sol nascente’; na música, temos o ‘Bolero’, de Ravel.
No filme LavourArcaica, prevalece a Escola Expressionista (do início do século XX), que enfatiza as emoções, a angústia, num contexto mórbido, com contrastes de claro e escuro. A expressividade substitui o código formal de interpretação dos atores. É uma visão de mundo atormentada e trágica. Coincide com a teorização freudiana da metapsicologia, em seus artigos sobre a Repressão e o Inconsciente, ambos de 1915, além de O Estranho (Sinistro) de 1919.
Na pintura, temos os quadros de Van Gogh, Gauguin, Toulouse-Lautrec, Munch. No cinema, especialmente na Alemanha, o período dourado do Expressionismo com ‘O gabinete do Dr. Caligari’ (Robert Wiene, 1919); o freudiano ‘Segredos de uma alma’ (George Pabst, 1926); e ‘M, o vampiro de Düsseldorf’ (Fritz Lang, 1930). Na literatura, destaca-se ‘Um sonho’, (Strindberg, 1901), além de Franz Kafka com ‘O processo’, de 1925, e James Joyce, com o inigualável ‘Ulisses’, 1922. No teatro, Bertold Brecht, com a ‘Ópera de três vinténs’, 1928, introduz a política nos palcos.

O FILME

Para a produção deste filme, completamente fora de todos os padrões, os atores tiveram que se preparar, durante quatro meses, sendo que, nos dois primeiros, ficaram em completo isolamento, como num retiro terapêutico, vivendo na antiga fazenda de Radouan, como se morassem lá, em família. Faziam todas as atividades próprias de uma fazenda, como plantar, cozinhar, ordenhar as vacas e tomar seu leite quente às quatro horas da manhã, além de fazerem longas caminhadas.
O ambiente da fazenda foi todo restaurado como no original. Usavam a roupa da época, rendas de 1940, e as roupas íntimas típicas do Líbano.
O filme tem pouca cor, muita luz ou muita sombra. Predomina a música árabe, com instrumentos de corda. Vieram músicos do Líbano para tocar instrumentos típicos, e algumas cenas foram tomadas no Líbano.
O narrador é o próprio Luiz Fernando, substituído, às vezes, pela voz do personagem André.

PRIMEIRA PARTE: Por que André saiu de casa?

Quando o filme começa, André já está fora de casa, na pensão. Ele sai em busca de si mesmo: ‘estamos sempre indo para casa’. Sua fuga acontece logo após consumar o incesto com Ana. Ela se refugia na igreja, ele na pensão. Seria por culpa, ou por não suportar o gozo?
Sai de casa por causa do excesso de afeto da mãe: ‘a mãe tinha um segredo e não dizia’. André sai de casa para não enlouquecer. ‘Tudo em nossa casa é morbidamente impregnado da palavra do pai’. Há um não-dito de toda a família. São todos mudos.
André troca os sermões do pai pelo contato com as prostitutas, apropriando-se dos fetiches delas.
A epilepsia e a possessão são sintomas do não-dito.
O excesso de carinho da mãe e o excesso da lei do pai denunciam a falta da função materna e paterna. A mãe fala pelo corpo, e o pai sufoca pelo autoritarismo: ‘Sempre gora o ovo que não é galado’.
O pai: ‘A felicidade só pode ser encontrada no seio da família’. A definição da família como endogâmica autoriza o surgimento dos incestos: mãe com os filhos e os filhos entre si. Não há relações fora da família, exceto com prostitutas.
Os pais não demonstram afeto, exceto na primeira festa, quando dançam e sorriem. A mãe nem tem nome, logo, não existe para o desejo do marido. Esta falta de desejo entre eles deixa o vácuo ocupado pelos filhos. ‘A roupa suja da família conta a verdadeira história de cada um’.
São nove pessoas na família: o pai no centro; o lado direito: Pedro, Rosa, Zuleika e Huda; o lado esquerdo, do sinistro: a mãe, André, Ana e Lula, incestuosos.
Rosa chama André de Andrula: condensação de André, Ana e Lula. O nome de Ana está também no nome do pai: Jóhana. A palavra Ana, em árabe, é Eu; em grego, é contra, como nas palavras anátema e análise. Ana parece ser o núcleo principal catalisador da família, mesmo sem dizer uma única palavra no filme. É um silêncio eloquente.

METÁFORAS: o sagrado e o profano:

O pai transforma a casa em igreja, com sermões. Nesta igreja Ana se refugia como a pombinha branca e santa;
a mãe transforma a casa em "bordel", com incestos, autorizando André a procurar prostitutas.

SEGUNDA PARTE: Por que André voltou para casa?

O retorno do recalcado. Para o pai biológico, André voltou porque se arrependeu, como o filho pródigo, e veio para se reconciliar com a tradição da família. ‘O gado sempre volta ao poço’.
Para Pedro, o segundo pai de André, a volta seria a reorganização da família, desbaratada com a saída de André.
Mas André pode ter voltado para matar o pai, no modelo descrito em ‘Totem e tabu’, restabelecer a lei, e se assumir como sujeito, desconstruindo o discurso do pai e sua lei vazia.
A parábola oriental do FAMINTO.
O pai fingia que alimentava o filho. O falso alimento fortaleceu o filho que, com um murro, matou o pai. Antes, porém, afirmou: ‘Ana é minha fome’. E conclui: ‘eu posso ser profeta da minha própria história’.
Vem a segunda festa da família. Ana faz uma dança sensual e sedutora, e mostra os adereços da prostituta, como prova de que ela, Ana, é desejante. Com este gesto, Ana mata simbolicamente o pai. Este fica perturbado, enfurecido. Desejava Ana? Ele se descontrola e mata a filha, sob os protestos veementes de todos da família. Seria a ‘paranoia de autopunição?’

CONCLUSÃO

A história gira em torno do equívoco sobre o conceito de família. O pai e a mãe desta família falharam em suas respectivas funções. A família era entendida como família biológica, endogâmica, supridora das necessidades, sem contatos externos. Não era uma família cultural, marcada pela lei da proibição do incesto. Autoritário demais, o pai não tinha autoridade. Afetiva demais, a mãe não colocava limites. Prova cabal da falta de lei, é o fato de o pai ter matado a própria filha.
Antes, Ana tinha matado simbolicamente o pai, ao afrontar publicamente sua autoridade.
O modelo psicanalítico é o texto freudiano ‘Totem e tabu’.
A (dis)-solução da família foi promovida por Ana que, fazendo jus a seu nome em árabe e em grego, abre uma fenda na estrutura da família. Ela foi a psicanalista da Lavoura, que interpretou todo o drama, sublimando a sexualidade na estética da dança.


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