04
Junho
2020
0
Estruturas Clínicas e o Calembur do Sintoma

Estruturas Clínicas e o Calembur do Sintoma


Criado: 04 Junho 2020 | Atualizado: 04 Junho 2020
Tamanho da fonte
pequena
normal
grande
Versão para impressão
imprimir
Este trabalho foi apresentado no Centro Português de Psicanálise, em Lisboa, no dia 26 de abril de 2019
Por Geraldino Alves Ferreira Netto

É no simbólico que o real é afirmado ou rejeitado ou negado (Lacan, Seminário 6, pág. 437).

Conforme à epígrafe acima, afirmar, ou negar a castração caracterizam respectivamente a neurose e a perversão. Rejeitar a castração é o próprio da psicose. Isto é, as estruturas clínicas organizam-se de acordo com a estrutura da linguagem. No neurótico há sempre um misto de dúvida, culpa e malentendidos; no perverso, a má intenção e o desmentido; no psicótico, a certeza, os neologismos e os fenômenos alucinatórios.

No filme O carteiro e o poeta (de Michael Rodford, 1994), o pobre estafeta já trabalhava como entregador particular das muitas cartas do poeta, mas também queria aprender a amar, características que Freud atribuía ao neurótico. Sem saber como abordar a moça dos seus sonhos, ele pede ao personagem Pablo Neruda uma receita infalível, e o poeta responde: fale uma metáfora para ela. Se o carteiro fosse um psicótico, talvez nem entregasse cartas, nem amaria do jeito que conseguiu, depois de chamar aquela dama de “borboleta”. A maneira como se fazem os jogos com palavras define as estruturas clínicas. Um destes jogos é chamado de calembur.

“Calembur” é um conceito muito raramente abordado na literatura psicanalítica. Freud falou, de passagem, sobre ele (Freud, 1977, pág. 61), denominando-o como ‘Kalauer’ (calembours), [‘trocadilhos’], que passa por ser a forma mais baixa de chiste verbal. Com o nome de chistes, ele abordava outras formas de jogo de palavras, trocadilho, não-senso, calembures, risos, humor, anedotas etc, sem definir claramente as características de cada um.

Lacan utilizou o conceito de calembour no Séminaire livre III (Lacan, 1981, pág.135), que foi, a meu ver, equivocadamente traduzido ao português, no Seminário 3, por “trocadilho” (Lacan, 1985, pág. 140). Defendo que esta tradução foi inadequada. O termo francês “calembour” consta nos dicionários brasileiros da Língua Portuguesa, com a grafia de calembur. Na edição argentina deste seminário, pela Ediciones Paidos, a tradução foi “retruécano”, retruque, réplica.

Já no Séminaire livre VI (2013, pág. 484), Lacan usa a expressão “jeu de mots”, muito bem traduzida na edição brasileira por “jogo de palavras”, ao afirmar que ‘Se as pessoas nos procuram é, em geral, porque as coisas andam mal na hora de pagar a conta à vista’, mas, assim, ‘o sujeito estaria mais frequentemente contente’. O trocadilho é entre “contante”, (comptant), e “contente”, (content), num processo em que o sujeito se conta. (Lacan, 2016, págs. 438-439).

Então, o que é um calembur? Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, “é um jogo de palavras semelhantes no som, mas de significado diferente, que dá lugar a dubiedades jocosas”. Segundo o Dictionnaire Petit Robert, é um jeu de mots (jogo de palavras) com a mesma característica descrita acima. Segundo Picoche (1979, no vocábulo bourde, pág.77), pode ser um gracejo, uma bobagem, um erro tipográfico, um aturdimento ou atordoamento.

Os jogos de palavras, em geral, trocadilhos, chistes e calembures, utilizam a homofonia, a homografia, e a repetição de letras e sons. Essas formas de linguagem são tomadas equivocadamente como sinônimas.

Na fase inicial de seu ensino marcado pelo Simbólico, Lacan afirma:

O inconsciente é, no fundo dele, estruturado, tramado, encadeado, tecido de linguagem. E não somente o significante desempenha ali um papel tão grande quanto o significado, mas ele desempenha ali o papel fundamental. [...] Se o inconsciente é tal como Freud nos descreveu, um trocadilho (calembour, no original) pode ser em si mesmo a cavilha que sustenta um sintoma, trocadilho (calembour, no original) que não existe numa língua vizinha. Isso não quer dizer que o sintoma está sempre fundado num trocadilho (calembour, no original), mas ele está sempre fundado na existência do significante enquanto tal, numa relação complexa [...] de universo do significante a universo do significante”. (Lacan,
1985, pág. 139-140).

Portanto, a simples existência de um significante enunciado ‘enquanto tal’, no Real, pode fundar um sintoma, desde que, na relação com outro significante, represente (ou não) um sujeito na enunciação do Simbólico.

Ao contrário do que afirmava Saussure, Lacan defende que um significante isolado não tem sentido em si mesmo, e que, portanto, ele não representa nem produz o significado, mas pode representar o sujeito para um segundo significante, eliminando o isolamento do primeiro. Concluímos, então, que o sentido de um significante emerge sempre de um nonsense. Resta saber de que maneira o significado se introduz entre dois significantes marcados, cada um isoladamente, pelo não-senso.

Para começar, o sujeito em pauta não é o sujeito da gramática, da realidade externa, mas, já desde Freud, é o sujeito da “realidade psíquica”, que atribui sempre outra significação ao seu dito, escolhida e determinada subjetivamente. Neste particular, Saussure (1995, pág. 80) também defende que o signo linguístico é uma entidade psíquica. Então, o significado só surge na relação entre os significantes, mediada pela subjetividade do falante, mas sem a relação biunívoca saussureana, em que Significante e significado formassem uma só unidade autônoma e fechada. Para Lacan, a barra recalca e separa o significante e o significado.

Por isto, insisto em que seria mais interessante que a tradução do Seminário 3, ao português, tivesse mantido o mesmo significante (calembur), o que tornaria a leitura mais instigante. Sustento que o calembur não é um mero sinônimo de jogo de palavras ou um simples trocadilho, do mesmo modo que o chiste ou ‘dito espirituoso’ não é o mesmo que uma piada.

Entre os conceituados estudiosos de J. Joyce, destaca-se a escritora Dirce Waltrick do Amarante (Amarante, 2009, pág. 24) que comenta as reações dos amigos de Joyce quando surgiram as primeiras publicações do Finnegans Wake: quando perceberam que era quase todo escrito em calembours (trocadilhos), ficaram perplexos, depois irritados, e finalmente indignados, tristes ou irônicos. Em outra publicação (Amarante, 2015, pág. 21) refere-se ao título da obra-prima joyciana como sendo uma brincadeira nonsense, um calembur (como foi a definição de calembur do Dicionário Etimológico de Picoche, citado acima), ao estilo de Lewis Carroll. Ao defender o uso do termo calembur, (Amarante, idem, pág. 109) afirma: Evito cuidadosamente o termo “trocadilho”.

Proponho traduzir o título Finnegans Wake como um calembur composto do latim Finis negans (negando a morte), ou do latim e inglês Finis again (morte e ressurreição), já que Wake significa acordar.

Então, cada estrutura clínica é decorrência de estruturas de linguagem diferentes. Vejamos:

I – Na estutura da neurose.

Pelo fato de o sujeito ter-se submetido às leis da castração, temos expressões de linguagem, no registro do Simbólico, embora marcadas pelo mal-entendido, resultado da polissemia dos significantes, como nos exemplos:

a) Jogos de palavras:

Formando uma sequência fônica típica, que não aparece na tradução, mas que é mais importante do que algum conteúdo de realidade que ela queira transmitir:

Le riz tentant tenta le rat; le rat tenté tata le riz tentant: O arroz tentador tentou o rato; o rato tentado comeu o arroz tentador.
Trou s’y fit, rat s’y mit: No que surge um buraco, o rato entra nele.
Ni trou, ni tache: Nem rasgão, nem sujeira, (na roupa).
Jamais on n’a vu, Jamais on ne verra, Un nid de souris, Dans l’oreille d’un chat.
Nunca se viu, nunca se verá, um ninho de rato, na orelha de um gato;
Atirei o pau no gatô-tô...: A repetição da última sílaba tônica nas frases faz a diversão da criançada, independente de qualquer alusão malvada.
O rato roeu a roupa da rainha de Roma: Pouco importa o conteúdo da frase. Mas, começar as palavras com a mesma letra também é um chamativo.
Sol com chuva, casamento de viúva: Qualquer destas palavras pode provocar associações sintomáticas, independente de alguma realidade que ela queira enunciar.
O doce perguntou pro doce qual doce que era mais doce; o doce respondeu pro
doce…

b) Jogos de frases:

Estes mostram uma reorganização diferente dos elementos de uma oração em outra, de modo que o sentido da segunda oração contrasta com o da primeira:

Há muitos livros no mundo, e grandes mundos nos livros. Eu me rio nos banhos, e me banho nos rios.

c) Pontuações ou escansões:

O fazendeiro tinha um bezerro e a mãe do fazendeiro era também o pai do bezerro; O fazendeiro tinha um bezerro e a mãe. Do fazendeiro era também o pai do bezerro. Se o homem soubesse o que tem, a mulher cairia de quatro.
Se o homem soubesse o que tem a mulher, cairia de quatro.

d) Homofonia:

Freud usou como recurso clínico, na casuística do Homem dos Ratos, a associação das palavras homofônicas, em alemão, Raten rateio, e Ratten ratos, para solucionar o historial de uma fobia, organizada em torno destes dois significantes. (Freud, 1972a, pág. 215).

Lacan também utilizou a homofonia e homografia em palavras ou expressões prenhas de um novo significado, como Père-version, perversion (Versão do pai, perversão); Le nom- du-père, le non-du-père, les non-dupes errent (O nome-do-pai, o não-do- pai, os não-tolos erram), resumo de toda uma teoria do Complexo de Édipo, da castração e das estruturas clínicas.

e) Ato falho:

Freud interpretou, no caso do Homem dos Lobos, o neologismo Espe, ato falho de Wespe (vespa, abelha), enunciada num sonho, e que recebeu do paciente a associação de S.P. (mesma pronúncia de Espe), que eram as iniciais de Serguei Pankejeff (Freud,
1976a, pág. 119). Bela ilustração de como um significante representa, produz ou induz o sujeito para outro significante que engendra a subjetivação e significação.
Numa antiga campanha política pelo interior de São Paulo, o candidato Ulisses Guimarães mandou recado aos eleitores que o esperavam, noutra cidade, para um comício: “Meu avião não conseguiu levantar votos”: uma tempestade impedira a decolagem.
Relato de paciente que, aos 4 anos de idade, perguntou pela própria origem, e ‘escutou’ a resposta: você nasceu da conjunção dos dois séculos opostos. A resposta, apesar da escuta falha do pequeno, desfez toda a sua angústia sobre a origem da vida.

f) Trocadilhos:

Nos trocadilhos, é comum a mesma palavra ou a frase inteira ser usada de maneira equívoca, com duplo significado, como nos exemplos:
Jogar o lixo no lixo. Substituição metonímica do conteúdo pelo continente.
Na filosofia aristotélica, o sofisma segue esse modelo, diferenciando-se do verdadeiro raciocínio silogístico, como no exemplo: “Todo cão ladra; ora, a Constelação é Cão; logo, a Constelação ladra”. A palavra ‘Cão’, por ser aqui metafórica, não é unívoca neste raciocínio, como exigem as leis do silogismo.
La corneille sur la racine boit l’eau à la fontaine: A gralha, sobre a raiz, bebe água na fonte.
La Corneille sur la Racine Boileau à La Fontaine: La Corneille, sobre Racine, Boileau em La Fontaine.

Nenhum dos significantes desta última frase recebe seu significado retroativamente. Eles têm a mesma sonoridade da penúltima frase, mas são significantes puros (nomes próprios), desencadeados. Todos são S1, significantes mestres, sem S2, cadeia significante. O uso das letras maiúsculas alterou esta sequência, que nem constitui uma frase, já que não tem sujeito, verbo, predicado. São citados quatro poetas e dramaturgos do Classicismo francês, da primeira metade do séc. XVI, mas não define nem aquele famoso grupo de poetas, porque não consta aí o principal deles, que é Molière, e que não se encaixaria na concordância fonética.

g) O chiste:

Também chamado de dito espirituoso é uma frase não premeditada nem ofensiva, mas inteligente que, em geral, surpreende o próprio autor, provocando um leve riso.

Freud relata o sonho de uma paciente, no qual aparecia o significante ‘canal’. Isto a levou a se lembrar do witz, tirado de uma conversa entre dois homens que viajavam de vapor, de Dover, na Inglaterra, para Calais, na França, atravessando o Canal da Mancha: “Du sublime au ridicule il n’y a qu’un pas”: Do sublime ao ridículo há só um passo. Sim, respondeu o outro: “Le pas de Calais”: O passo da Mancha. (Freud, 1972b, pág. 552 n.). O diálogo revela a velha rivalidade entre franceses e ingleses: a França é sublime e a Inglaterra é ridícula, apesar de estarem tão perto uma da outra.
O dito espirituoso embute uma informação que não aparece expressamente nas palavras da frase.

h) Palavra-valise:
Criada por Lewis Carroll, como palavra composta, foi explorada à saciedade, por James Joyce, como, por exemplo, chaosmos (caos e cosmo).

i) Anagrama:
Supõe a inversão das letras, como Roma, amor; dream, merda.

j) Palavra-cabide:

Expressão criada por Dirce Waltrick, é uma junção de duas ou mais palavras, como “má conha”, “Luz ia”.

k) Soundsenses:

Palavras formadas por grande quantidade de letras que, lidas em voz alta, podem simular o barulho de um trovão. Ou comoo verso: “Eh-laô-lahô-laHÔ-O-O-ôô-lahá- á-á -- ààà!... AH-Ó-Ó Ó Ó Ó-Ó Ó Ó Ó Ó – yyy!... SCHOONER AHÓ-Ó-Ó-Ó-Ó- Ó-Ó-Ó-Ó-Ó – yyyy!” (Fernando Pessoa, 1980, p. 223). Em alguns poemas, descrevendo os marinheiros em alto mar, esses são gritos à procura de outras embarcações.

l) Onomatopeias:

Palavras que representam um som natural, como bem-te-vi.

II- Na estrutura da perversão.

Há aí uma inversão do simbólico para o imaginário, quando o sujeito finge um contorno simbólico legal, mas sua má intenção imaginária desmente o objetivo do discurso. Assim, o produto que ele entrega não é o produto oferecido ou solicitado.

a) É o que acontece na pedofilia, pelo tipo de sedução ou molestamento sobre uma criança ainda incapaz de julgar as verdadeiras intenções do adulto, ou no caso de estupro ou violência contra um adulto não consenciente.
Qualquer outra atividade sexual que conte com o consentimento dos parceiros é aceita sem restrição.

b) É também o caso de uma mentira travestida de verdade, como no exemplo citado por Freud (1977, pág. 136): “Dois judeus encontram-se num vagão de trem em uma estação na Galícia. ‘Onde vai?’, perguntou um. ‘À Cracóvia’, foi a resposta. ‘Como você é mentiroso!’, não se conteve o outro. ‘Se você dissesse que ia à Cracóvia, você queria fazer-me acreditar que estava indo a Lemberg. Mas sei que, de fato, você vai à Cracóvia. Portanto, por que você está mentindo para mim?’”

c) No grande exemplo do sistema capitalista perverso, promete-se aos cidadãos a possibilidade de se tornarem ricos. Mas não lhes é dito que, para haver ricos, muitos têm que se tornar pobres contribuintes, do mesmo modo que na dialética hegeliana são requeridos muitos escravos para sustentar cada Senhor. É uma propaganda enganosa, em cuja etimologia está o gerúndio do verbo ‘pagar’ (pagando).

III- Na estrutura da psicose.

Em função da forclusão do significante do Nome-do-pai, surge uma lacuna na cadeia significante, que compromete o significado no discurso, criando o delírio, o nonsense e a homofonia translinguística.

a) Pode ser em forma de delírio:

É o que vemos na autobiografia de Schreber (1995, pág. 222), onde ele afirma: “Deveria ocorrer uma verdadeira emasculação (transformação em uma mulher); particularmente durante o tempo em que eu acreditei que o resto da humanidade tinha perecido, a solução me parecia um requisito indispensável para preparar uma renovação da humanidade”.

Do ponto de vista lógico, este raciocínio pode estar correto pela lógica formal, mas é incorreto pela lógica material, já que se baseia em uma premissa falsa, segundo a qual todas as pessoas já teriam morrido, exceto Schreber.

b) Com o uso do calembur:

No meu modo de pensar, o calembur são palavras ou frases sem nenhuma correspondência de sentido com a outra, ou sem veicular, aparentemente, nenhuma informação, como vemos no livro Finnegans Wake (Joyce, 2012, págs. 47, 145, 159, texto bilingue):

- O acasalamento cigano de um coveiro de grande estilo com o pãozinho de segunda doçura (uma interpolação: essas devorações não ocorrem só na família manducária dos Pão-com-manteiga dos MSS., Bb – Cod IV, Pap II, Lun III, Dinn XVII, Sup XXX, Fólio MDCXC: o escoliasta famintamente desatendeu o dobrar dos sinosdo morto como se se tratasse de bolinho mofino.

- Oh, quão fuusco que era! De Vale Maria a Grasyaplaina, dormemuito echo! Ah, Ser Eno! Ah, Zulivre! Era tão fuusco que as lágrimas da noite começaram a fluir, primeiro por umas e duas, então por três e quatros, enfim por cincos e seis de setes, pois as cansadas acordavam como agora choramos com elas. O! O! O! Par la pluie!

- O baú de chapéus que compunha a Romba, princesa Trebizonda, (Marga nosseus excelsis), compreendia um climaxtograma, imagine-seescalado prazerosamente por B e C, com sugestões de moda primaveril para cavalheiros, modas que nos reconduzem à formação de camadas sobrepostas do eoceno e do pleitoceno e as mudanças morfológicas ao nosso corpo político que o Professor Ebahi-Ahuri de Philadespoinis (III) – sobre o livro azul do qual acabo de desferir um golpe de graxa – sagazmente chama boîte à surprises.

c) Com a homofonia translinguística:

Outra forma típica de calembur joyceano é citada por Lacan no anexo do Seminário 23, Lacan (2007, pág. 162), onde ele destaca uma figura de linguagem inédita chamada de homofonia translinguística, que consiste em escrever algo numa língua, imitando ou aludindo à fonia ou grafia de outra língua, como, por exemplo, na frase já citada acima:

From Vallee Maraia to Grasyaplaina, dormimust echo! (Joyce, 2012, pág. 144);

Tradução de Donaldo Schüler: De Vale Maria a Grasyaplaina, dormemuito echo!
(idem, pág. 145);
Eu traduziria por: Ave, Maria, gratia plena, Dominus tecum (Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco (traduções próprias).

Um segundo exemplo joyciano, entre muitos (Lacan 2007, págs. 162 e 165):
Who ails tongue coddeau, aspace of dumbillsilly?
A transliteração sonora francesa seria: Où est ton cadeau, espèce d’imbécile?
Em português: Onde está seu presente, seu imbecil?

Millot (2017, p. 104) alega que Lacan utilisou-se da homofonia translinguística no título do Seminário 24: L’insu que sait de l’une-bévu s’aile à mourre. Tradução proposta: O malsabido de um fora se joga no amor. Sugerimos outra tradução, usando esta frase de Lacan (1979, p.30): O inconsciente se acha na margem estritamente oposta à de que se trata no amor. ´E interessante como Lacan (Google,
2011) utilizava este recurso como interpretação clínica, como é relatado no documentário Rendez-vous chez Lacan (Um encontro com Lacan), no momento em que a paciente alemã relembra a época de perseguição pela Gestapo, e Lacan escuta como geste à peau, fazendo-lhe um carinho no rosto.

Definição de calembur?

Na falta de melhor definição do conceito de calembur na psicanálise, sugiro utilisar uma descrição proposta por Lacan (2007, pág. 162): “jogar estritamente apenas com a linguagem, […] desabonada do inconsciente, […] na medida em que ela é reduzida ao sintoma”. Em outras palavras, quando o significante, no Real, não representa o sujeito para outro significante.

Lacan reforça ainda mais:

Se o leitor fica fascinado é porque Joyce, em conformidade com o que esse nome ecoa o de Freud -, tem, no final das contas, uma relação com ‘joy’, o gozo, [jouissance], tal como é escrito na lalíngua que é a inglesa -, por ser essa gozação, por ser esse gozo a única coisa que, do seu texto, podemos pegar. Aí está o sintoma. [...] o sintoma é puramente o que lalíngua condiciona, mas de certa maneira Joyce o eleva à potência de linguagem, sem torná-lo com isso analisável.

É importante advertir que a língua inglesa usada por Joyce (1882-1941) é mesclada de resquícios do gaélico celta, já fora de uso.

O mestre francês escreveu todo o seminário, número 23, sobre James Joyce, autor das citações anteriores, no qual Lacan (2007, págs. 120,121) destaca também o conceito de cópula. Dizendo que 'não há relação sexual, acrescenta: o que somos, quando somos homem, é da ordem da copulação, isto é, do que transborda esta copulação na não menos citada e, de modo significativo, cópula, constituída pelo verbo ser. E acrescenta que o texto joyciano citado é um sonho que, como todo sonho, é um pesadelo, [...] e que o sonhador não é nenhum personagem particular deste livro, mas o próprio sonho.[…] É nisso que Joyce desliza, desliza, desliza até Jung, desliza até o inconsciente coletivo. Que o inconsciente coletivo seja um sinthoma, não há melhor prova que Joyce'.

Eu não classificaria como calembur o título do Seminário, livro 20, Encore (Lacan, 1982, pág. 5), porque este significante não está propriamente isolado, já que todo o texto do seminário é uma sequência deste título, ao desenvolver a teoria do gozo feminino, em que o desejo da mulher, por ser insatisfeito, reclama o Mais, ainda. Trata-se de um advérbio em francês, e dois em português, sem referência direta a algum verbo ou adjetivo.

Lacan insiste em dizer que, para a psicanálise, não há biunivocidade entre Significante e significado, com o exemplo das ‘duas portas do banheiro’ (Lacan, 1998a, pág. 502). Sob a imagem destas portas, em vez de repetir o significante ‘porta’, como faria Saussure devido a um suposto “vínculo natural entre o significante e o significado” (Saussure, 1995, pág. 82), Lacan escreve Damas e Cavalheiros, na parte de cima, definindo a primazia do Significante sobre o significado, e enfatizando que estas portas impõem uma ‘segregação urinária’, decorrente de um vínculo cultural, determinando qual entrada iremos escolher.

E Lacan ressalta:

“Um sistema do significante, uma língua, tem certas particularidades que especificam as sílabas, os empregos das palavras, as locuções nas quais elas se agrupam, e isso condiciona, até na sua trama mais original, o que se passa no inconsciente. [...] A doutrina de Freud é tão assim que não há outro sentido a ser dado a seu termo ‘sobredeterminação’, e à necessidade que ele pôs de que, para que haja sintoma, é preciso que haja ao menos duplicidade, ao menos dois conflitos em causa, um atual e um antigo. Sem a duplicidade fundamental do significante e do significado, não há determinismo psicanalítico concebível. O material ligado ao conflito antigo é conservado no inconsciente enquanto significante em potencial, significante virtual, para ser tomado no significado do conflito atual e servir-lhe de linguagem, isto é, de sintoma” (Lacan, 1985, pág.
140). “A significação é o discurso humano na medida em que ele remete sempre a
uma outra significação”. (idem, pág. 139).

O ‘material’ remete a ‘matéria’, que remete a ‘mater’, o objeto perdido que se tenta reencontrar. O significante potencial ou virtual seria a matéria, o ‘isso’ não recalcado (Real), que pode receber a forma de um significado enunciado pelo eu consciente (Imaginário), deixando latente a enunciação do sujeito do inconsciente (Simbólico).

O Significante em potencial é o Real (o Isso não recalcado), ou a ‘materialidade’, que pode receber a ‘forma’ de um significado atual a partir do código da linguagem, com o recalque.

Saussure descartava os fonemas no estudo da língua (1995, pág. 80): E porque as palavras da língua são para nós imagens acústicas, cumpre evitar falar dos “fonemas” de que se compõem. Ao contrário, Freud (1976b, pág. 26) demonstrou que um simples fonema já caracteriza o Simbólico, no dizer de seu netinho de 18 meses:
‘o’, ‘a’ (Fort, da). Tal fonema transforma-se em Simbólico quando associado a um segundo elemento, o carretel, referência à presença ou ausência da mãe.

E quando Freud exige as associações livres como condição da análise, define a psicanálise como Clínica do Simbólico.

Nos textos sobre a psicose, Lacan trabalhou os neologismos e delírios do psicótico, na mesma trilha de Freud (Freud, 1969, pág. 94): A formação delirante, que presumimos ser o produto patológico, é, na realidade, uma tentativa de restabelecimento, um processo de reconstrução. [...] aquilo que foi internamente abolido retorna desde fora. A pergunta que fica é se este retorno vem necessariamente de fora (pelo Real) ou se pode vir pelo próprio Simbólico, como em James Joyce?

Tornou-se consensual afirmar que Freud não acreditava na cura (tratamento) do psicótico. Mas ele afirmou o seguinte (Freud, 1976d, pág. 76):

Pareceria, contudo, que o estudo analítico das psicoses é impraticável devido à sua falta de resultados terapêuticos. Os pacientes mentais, em geral, não têm a capacidade de formar uma transferência positiva. [...] A transferência amiúde não se acha tão inteiramente ausente, mas pode ser utilizada até certo ponto, havendo a análise alcançado inegáveis êxitos com depressões cíclicas, ligeiras modificações paranoides e esquizofrenias parciais.

A tentativa é de restituição de uma lei que faltou, de um acidente na resolução do complexo de castração, uma lacuna, um significante potencial ou virtual, com a consequente falta de sentido na história do sujeito. Para Lacan, esta lacuna causou o desencadeamento da cadeia significante, ou a forclusão (Lacan, 1985, pág. 360) de um significante específico, o Nome-do-pai, ou o Não-do-pai, causando uma fixação num significante que, ao interromper a cadeia, não gerou significado. Assim, Lacan (idem, pág. 141), nos orienta brilhantemente na atividade clínica: as primeiras regras de um bom interrogatório, e de uma boa investigação das psicoses, poderiam ser a de deixar falar o maior tempo possível.

Na fase final de seu ensino, marcado pelo Real, Lacan introduz dois novos conceitos:

a) A alíngua.

Trata-se de um conceito obscuro. Os Dicionários de Psicanálise da E. Roudinesco, de Pierre Kaufmann e de Roland Chemama nem sequer registram este verbete. Lacan assim o define:

“A linguagem é apenas aquilo que o discurso científico elabora para dar conta do que chamo alíngua. Alíngua serve para coisas inteiramente diferentes da comunicação. É o que a experiência do inconsciente mostrou, no que ele é feito de alíngua [...] para designar o que é a ocupação de cada um de nós, alíngua dita materna. [...] Mas alíngua, será que ela serve primeiro para o diálogo?” (Lacan,1982, pág. 188).

Dois anos depois, Lacan retoma: “A bateria significante d’alíngua só fornece a cifra do sentido. Cada palavra adquire, segundo o contexto, uma gama enorme, disparatada, de sentido, sentido cuja heteróclise é frequentemente atestada no dicionário. [...] Com efeito, é pelo fato de todo significante, do fonema à frase, poder servir de mensagem cifrada [...]. É o real que permite efetivamente desatar aquilo em que consiste o sintoma, ou seja, um nó de significantes. Atar e desatar não sendo aqui metáfora, e sim devendo ser apreendidos como esses nós que se constroem realmente ao fazer cadeia da matéria significante. Pois essas cadeias não são de sentido mas de gozo, não são de ‘sens’ mas de ‘jouis-sens’” (Lacan, 1993, pág. 24 e 25).

A linguagem descreve a realidade imaginária contida nos dicionários, a verdade dos fatos, enquanto que a alíngua descreve a realidade psíquica, a verdade do sujeito e a palavra plena, em oposição à palavra vazia, na qual faltaria a subjetivação. A ‘fala vazia e fala plena’ encontram-se no texto de Lacan (1998b, pág. 248) da primeira fase, e já estava em Freud, na retificação subjetiva: ‘e você?, proposta a Dora (Freud, 1972c, pág. 33, 36, 66), ao perguntar qual era a parte dela naquelas desordens da família.

É interessante que, a partir do momento em que Lacan propõe o conceito de alíngua, parece deixar de referir-se à fala plena, tão frequente na fase anterior, do Simbólico. Foi uma substituição?

A alíngua é a língua incompleta marcada pelo gozo e pelo desejo. É uma forma de marcar o encontro traumático entre a carne e o logos. [...] alíngua é a relação imaginário-simbólica que tentamos e, mesmo, que necessitamos estabelecer originariamente, através da língua materna, com o real que nos cerca e nos escapa (Lúcia Santaella e Fani Hisgail, 2013, pág. 70).

Esta afirmação está em plena consonância com o estudo lacaniano dos quatro conceitos fundamentais, ao afirmar que a práxis da psicanálise consiste em tratar o real pelo simbólico (Lacan, 1979, pág. 14). E se esta é a práxis, Lacan (1976, pág. 36) não duvida de afirmar que a autoanálise de Freud era uma cura pela escrita, e creio que foi por isso que ela fracassou. Escrever é diferente de falar, ler é diferente de escutar (tradução própria). Alusão clara à correspondência epistolar entre S. Freud e W. Fliess.

O conceito de alíngua introduz o registro do Real na fala plena do neurótico, sendo que este real já era reconhecido na fala do psicótico, através do delírio e da alucinação, já que aí o retorno do recalcado não vinha pelo simbólico e sim pelo real.

No documentário francês de 1972, Lacan parle, realizado na Universidade Católica de Louvain, por Françoise Wolff, Lacan dá a entender que alíngua é a linguagem que cada um recebe na família, produto do desejo dos pais, sobretudo da mãe, uma língua particular. Então, podemos afirmar que a linguagem é para todos os seres humanos; a língua é para determinado país ou região; e a alíngua é de um sujeito em particular? Da mesma maneira que o mito, que significa ‘palavra’, pode ser universal, familiar e individual?

b) Sinthoma, o quarto nó.

É por isso que, em termos metafóricos e com contradições, Lacan criou o termo de sinthoma para designar o quarto círculo do nó borromeano, e para significar que o sintoma deve ‘cair’, segundo sua etimologia, e que o sinthoma (antiga grafia de sintoma) é aquilo que não cai, mas que se modifica para que seja possível o gozo, o desejo (tradução nossa), (Chemama, 1993, pág. 283).

O importante dicionarista Chemama não esclarece quais são as contradições (ou obscuridades?) de Lacan, citadas acima. Talvez possamos localizá-las no próprio seminário (Lacan, 2007, pág. 98) que teoriza sobre o sinthoma: Trata-se de situar o que o sinthoma tem a ver com o real, o real do inconsciente, se o inconsciente for real. Como saber se o inconsciente é real ou imaginário? É efetivamente a questão. Ele participa de um equívoco entre os dois. O inconsciente como Real é a instância do Isso freudiano, um inconsciente não recalcado.

Sugiro pensar que o inconsciente é real no caso em que o psicótico não fabrica a prótese, mantendo os delírios, como Schreber. Já o inconsciente será imaginário quando o ego criar a prótese, como Joyce. E o sintoma neurótico traz em si a marca do simbólico, pela incorporação da lei.

A nova grafia de Sinthome, diferenciado do sintoma, alude a uma ‘suplência’ do Nome-do-pai, que seria um quarto nó amarrando os outros três, para evitar o desencadeamento da psicose, como foi o caso de J. Joyce que, segundo Lacan, criou o Pai-do-Nome, com sua escrita, restaurando o anel do Imaginário que havia escapado. Trata-se de uma prótese, um ego substituto (idem, ibidem).

Lacan admite que a ideia de um quarto nó já estava em Freud, segundo relata a psicanalista Michele: Fiel a sua referência a Freud, Lacan afirmará que a necessidade de um quarto aro que enodasse simbólico, imagináio e real já estava em Freud. [...] Relacionará o que Freud chamou de “realidade psíquica” com o quarto aro que enoda real, simbólico e imaginário, articulando-o ao complexo de Édipo (Faria, 2019, pág. 31).

Mas Lacan parece não se dar conta de que a ideia de uma prótese já fora também sugerida antecipadamente por Freud (1976c, pág. 231-232): na psicose, a fuga inicial é sucedida por uma fase ativa de remodelamento; que consiste (…) em efetuar mudanças internas, sendo autoplástico.

No Brasil, nosso Joyce seria o artista plástico sergipano Arthur Bispo do Rosário (1882-1941), que produziu mais de mil obras de arte, divulgado em exposições no mundo inteiro, tratado em hospital psiquiátrico pela Drª Nise da Silveira. Sua principal obra é o Manto de Apresentação, um bordado confeccionado durante anos, com nomes de pessoas conhecidas, para ser apresentado a Deus no dia do Juízo Final. Esta foi sua prótese. Ao costurar o manto, cerzia seu próprio ego?

Conclusão

Toda essa elaboração decorre da afirmação lacaniana já citada, no original em francês, de que um calembur pode ser em si mesmo a cavilha que sustenta um sintoma. [...] Isso não quer dizer que o sintoma está sempre fundado num calembur, (Lacan,1985, pág. 140). Trata-se então de calembur e não de trocadilho, como foi traduzido, porque este último é sempre esta cavilha, como afirma o título freudiano de: Os chistes e sua relação com o inconsciente. Mas o calembur pode ser ou não ser esta cavilha, dependendo do complemento de uma prótese. Somente a partir do Seminário 23 é que Lacan passou escrever a nova grafia de sinthoma, que já devia estar na citação acima.

Sugiro pensar que os conceitos de chiste e demais jogos de palavras dão conta do sintoma, na ortografia freudiana, tendo sido utilizados no Seminário 6, sobre o desejo do neurótico, no registro do simbólico. Afinal, são relações simbólicas e metafóricas, de quem passou pela metáfora paterna.
Já o calembur, enquanto não-senso e cavilha do sinthoma, aparece no Seminário 3, sobre as psicoses, no registro do Real. A utlização de significantes tão distintos, jogo de palavras e calembur, não pode ser casual ou indiferente.

Neuróticos e perversos pagam caro ao aderir ao código da linguagem, submetidos a uma lei que os leva a sempre administrar, superar e metaforizar o non-sense, para garantir sua subjetividade. Este é o campo da psicanálise, que Freud articulou bem enquanto teoria e prática.

Com relação ao psicótico, Freud acreditava que, embora livre dos grilhões da lei, ele tenta restaurar esta mesma lei, quando alucina ou delira, mas não garantia que ele obtivesse êxito, e nem que pudesse se beneficiar da psicanálise, por falta de transferência e metaforização.

Lacan acreditou na possibilidade e capacidade do psicótico de conviver com o non- sense, com o pé-da-letra da linguagem, compensando a falta de metaforização pela criação de uma suplência para a forclusão do Nome-do-pai, fazendo uma “prótese” através da arte ou literatura, como foi o caso de James Joyce, tornando-se Pai-do- nome, de seu próprio nome, através de um reconhecimento público. Seu discurso é povoado de calembures e neologismos, que é sua maneira mais produtiva do que os jogos de palavras oficiais da linguagem convencional.

Entendo, então, que o sintoma neurótico seja sustentado por um trocadilho, enquanto que o sinthoma psicótico ‘pode’ ser sustentado por um calembur, por um não-senso, por um processo de fixação num significanate que não encadeia o discurso, não produz significado, e que não cai, porque, devido à forclusão do Nome-do-pai, o retorno não vem pelo Simbólico, só vem pelo Real, mantendo-se em suspenso, sem remeter a outro significante, e sem possibilidade de cura, como pensava Freud. O conflito antigo não se confronta nem se atualiza com um novo significante.

Mas, segundo Lacan, esse sinthoma pode modificar-se com a prótese do Pai-do-nome. Já o sintoma neurótico não se fixa, estagnado em um calembur ou non-sense, porque consegue metaforizar e produzir o significado, como Freud descobriu ao fazer a histérica falar, suspendendo o recalque e permitindo a queda do sintoma, quando a lacuna é substituída e completada com outro significante associado. Afinal, o sintoma surge de não-dito, como tentativa de restituir aquela fala.

O calembur não será o prenúncio do conceito de alíngua, já que ambos estão no Real do non-sense? E não será non-sense cada um dos significantes, já que nenhum deles se significa a si mesmo? Então, todo significante potencial (en puissanse, - en jouis- sense) é um Real de gozo que pode (ou não) sustentar um sintoma ou um sinthoma, desde que consiga associar-se a outros significantes, ou desde que consiga aplicar uma prótese joyceana onde faltou o Nome-do–Pai. É por isso que os textos de Joyce, por mais incompreensíveis que sejam, conseguiram produzir o sinthoma e uma suplência que o salvou da psicose.

Todo significante virtual é Real, sem sujeito, tornando-se Simbólico pela subsequente subjetivação. O “Isso fala” se expressa pela alíngua, enquanto que o sujeito do inconsciente fala pela linguagem: Wo es war, soll Ich werden? Lacan (1979, pág. 47) havia antecipado: Mas o sujeito está aí para ser reencontrado, ‘aí onde estava’ o real.

Resumindo:

Nos neuróticos e perversos, teríamos a alíngua mais a bateria significante: (Simbólico, Imáginário e Real anodados);
Em Schreber, a alíngua sem prótese: (O Simbólico mal-amarrado);
Em Joyce e no Bispo do Rosário (?), a alíngua com prótese e suplência do Pai-do- Nome. (O quarto nó amarrando os outros três);


Referências

Amarante, Dirce W. do, Para ler Finnegans Wake, Iluminuras, São Paulo, 2009. Amarante, Dirce W. do, James Joyce e seus tradutores, Iluminuras, São Paulo, 2015. Chemama, R. Dictionnaire de la psychanalyse, Larousse, Paris, 1993.
Faria, M. R.. real, simbólico e imaginário no ensino de Jacques Lacan, Toro, São Paulo, 2019. Freud, S. Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranoia, Imago,
Rio de Janeiro, 1969.
Freud, S. Notas sobre um caso de neurose obsessiva, Imago, Rio de Janeiro, 1972a. Freud, S. A interpretação de sonhos, Imago, Rio de Janeiro, 1972b.
Freud, S. Fragmento da análise de um caso de histeria, Imago, Rio de Janeiro, 1972c.
Freud, S. História de uma neurose infantil, Imago, Rio de Janeiro, 1976a. Freud, S. Além do princípio do prazer, Imago, Rio de Janeiro, 1976b.
Freud, S. A perda da realidade na neurose e na psicose, Imago, Rio de Janeiro, 1976c. Freud, S. Um estudo autobiográfico, Imago, Rio de Janeiro, 1976d.
Freud, S. Os chistes e sua relação com o Inconsciente, Imago, Rio de Janeiro, 1977.
https://www.youtube.com/watch?v=NAZ4cQ4w2Cc 2011
Joyce, J. Finnegans Wake / Finnícius Revém, Ateliê Editorial, Cotia, S.P, 2012.
Lacan, J. Conférences et entretiens dans des universités nord-américaines, in Scilicet 6/7, Du
Seuil, Paris, 1976.
Lacan, J. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Zahar, Rio de Janeiro, 1979. Lacan, J. Les psychoses, Séminaire III, Éditions du Seuil, Paris, 1981.
Lacan, J. Mais, ainda, Zahar, Rio de Janeiro, 1982.
Lacan, J. As psicoses, Seminário 3, Zahar, Rio de Janeiro, 1985. Lacan, J. Televisão, Zahar, Rio de Janeiro, 1993.
Lacan, J. A instância da letra, in Escritos, Zahar, Rio de Janeiro, 1998a.
Lacan, J. Função e campo da fala e da linguagem, in Escritos, Zahar, Rio de Janeiro, 1998b.
Lacan, J. O sinthoma, Seminário 23, Zahar, Rio de Janeiro, 2007.
Lacan, J. Le désir et son interprétation, Éditions de La Martinière, Paris, 2013. Lacan, J. O desejo e sua interpretação, Zahar, Rio de Janeiro, 2016.
Millot, C. A vida com Lacan, Zahar, Rio de Janeiro, 2017.
Pessoa, F. O Eu profundo e os outros Eus, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1980. Picoche, J. Dictionnaire Etymologique du français, Le Robert, Paris, 1979. Santaella, L. e Hisgail, F. Semiótica psicanalítica, Iluminuras, São Paulo, 2013. Saussure, F. Curso de Linguística Geral, Cultrix, São Paulo, 1995.
Schreber, D. Memórias de um doente dos nervos, Paz e Terra, São Paulo, 1995.

Geraldino Alves Ferreira Netto – Associação Livre www.associaçãolivre.com.br geraldinoafn@uol.com.br
tel. 19-3258-6184 (res.) 9.8204-3858
Campinas, S.P. 20/04/2019.

Este trabalho foi apresentado no Centro Português de Psicanálise, em Lisboa, no dia 26 de abril de 2019.


Avatar
Autor

Geraldino Alves F.


O que você achou desta informação?

Avaliação

Deixe sua avaliação
Comentários
0
Deixe seu comentário

Comentários

Faça parte da notícia, deixe seu comentário, expresse sua opinião.
E-mail protegido, também não gostamos de SPAM
Sua mensagem foi enviada com sucesso!

WhatsApp