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Educação & Drogas: As famílias podem melhorar? Aportes psicanalíticos

Educação & Drogas: As famílias podem melhorar? Aportes psicanalíticos


Criado: 27 Março 2015 | Atualizado: 27 Março 2015
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Por Helena Lima
Pós-Doutoranda em Educação: Psicologia da Educação - PUC/SP
Doutora em Saúde Pública - FSP/USP
Bióloga (USP), Psicóloga (PUC/SP), Psicanalista

Droga é um tema que todo educador adora lamentar, mas detesta trabalhar - as famílias, tanto pior. Com a herança da chamada “Guerra às Drogas”, ficou lugar comum demonizar o objeto-droga como causador de todos os males das relações, das existências.

Os psicoativos ou drogas foram, são e sempre serão (1) parte da história da humanidade em qualquer época, local ou cultura e (2) objetos inanimados.

Tratar o objeto-droga como poderoso, onipotente, onisciente é subestimar completamente a condição subjetiva humana. Ao se colocar a droga como centro das mazelas da humanidade, ignora-se e despreza-se o fator humano. O sujeito que está ali, com suas razões, desrazões, sofrimentos e prazeres, em relação doentia com um objeto.

Nas famílias, as drogas legalizadas ocupam altares nas salas imponentes, ou gavetinhas dos criados-mudos. Prescritas, essas camisas-de-força químicas são endeusadas como nunca se viu na história da Humanidade. Para os homens, whisky, pinga ou cerveja; para as mulheres, Rivotril, Daforin. Para as crianças e jovens, Ritalina. Sim, há uma questão de gênero. E idade.

Assim começa um cenário de legitimação do objeto-droga como central, determinante do comportamento humano. Agrediu? Foi o comprimido. Agrediu de novo? Foi a falta dele.

A medicalização traz um grave engodo: atribuir a ingesta (ou não) de comprimidos como causa única e linear do comportamento humano.

Tanto as famílias como os professores e gestores tem uma relação de ambivalência em relação ao objeto-droga. Junto ao temor, o fascínio. Com o discurso, a prática contraditória. E cada um cobrando do outro uma atitude definitiva, proibitiva, diante desse estranho objeto.

As celebrações costumam ter álcool, brindes. As paqueras, as aproximações mais sutis, baforadas de cigarro. Os desesperos, do copo d´água com açúcar até os potentes calmantes. As drogas estão aí, circulando entre nós. O temido “mundo das drogas” é o nosso mundo, o lugar em que habitamos.

Nas escolas, os profissionais muitas vezes padecem das mazelas de um assunto-tabu, padecem do sofrimento provocado pelo silêncio absoluto. Sabe-se o que acontece com os alunos, com os colegas professores. Existem drogas circulando além da conta, além do possível num espaço público, provocando prejuízos muitas vezes irreversíveis.

A escola passa o problema para a família, que devolve para a escola... e nesse circuito, o desenvolvimento do tédio encontra manancial. O tédio, como experiência ôntica e ontológica, nos remete ao desespero silencioso. Nada motiva, nada é capaz de alterar a sensação de repetição e falta de possibilidades que o tédio apresenta. E os psicoativos surgem sempre como alentos e bálsamos para almas entediadas – e tediosas.

Afinal, toda pessoa que consome drogas cria dependência?

Não. Em termos epidemiológicos, apenas uma pequena porcentagem das pessoas que experimentam e mesmo usam drogas desenvolvem quadros de dependência.
Sim. Em termos psicanalíticos, todos somos aptos a desenvolver compulsões. Onde há compulsão, há sofrimento.

A dependência caracteriza-se principalmente pela assunção da centralidade na vida do sujeito. Quanto tempo ele investe e dedica em obter e utilizar a droga? Quantas e quais renúncias são feitas em nome do uso do psicoativo?

A quantidade de droga ingerida não é parâmetro para designação de um quadro como sendo de dependência. Um sujeito que toma duas cervejas no final de semana e bate na própria esposa tem um quadro muito pior, em termos de prognóstico, do que aquele executivo que toma pacificamente seu whisky ao final do dia, em sua poltrona?

Depende.

Quando se fala em droga, a questão é qualitativa e não quantitativa. Cada situação precisa ser analisada em seu contexto: quanto se abre mão da própria vida, de projetos, de construções coletivas, para se adquirir e usar determinada droga? E o objeto-droga pode ser um psicoativo, um relacionamento, um cartão de crédito... a possibilidade de se desenvolver uma compulsão é inerente à nossa condição humana. Ninguém sabe o que pode funcionar como “gatilho” para que um comportamento habitual torne-se compulsivo.

A compulsão existe. O sujeito tem uma sensação de desagregação e morte se não conseguir satisfazer seu desejo. Essa sensação é real, corporificada, manifesta-se muito pouco em verbalizações, e muito mais em busca de saciedade desse desejo.

Quando alguém abre mão de seu tempo, de seu dinheiro, de seus vínculos afetivos próximos, de seus projetos de vida, de sua higiene pessoal, de sua temporalidade e espacialidade, quando tudo isso ocorre por conta do uso de um psicoativo, podemos entender como doença. Como restrição existencial. A doença não é necessariamente a presença de um microrganismo, de um quadro de sinais e sintomas. A doença é a restrição. A incapacidade de ser normativo, de compreender e seguir as normas daquele contexto específico.

A doença, ou o gozo, são formas de se estagnar o desejo, impossibilitando-o. No gozo, não se deseja. E muitas vezes as famílias apresentam suas relações interpessoais tão imersas em diferentes gozos, com papeis cristalizados de cada um de seus componentes, que o objeto-droga assume um lugar importantíssimo como ferramenta de “despertar” e “sentir”. No mar de tédio em que muitas relações naufragam sem recursos, o objeto-droga pode ser um alento, um bálsamo – por mais que seja temporário, efêmero, fugidio.

Em geral, o sujeito que escolhe usar um psicoativo é colocado, na dinâmica familiar, como o bode expiatório de toda uma situação já caótica na base. Do mesmo modo, o caos social, a exclusão e a miséria, antecedem determinados cenários de abuso de drogas. Primeiro o ovo quebrado, depois a galinha em desespero.
Muitas famílias procuram atendimento psicológico sem a mínima ideia do que se trata, quais são as abordagens possíveis, num desespero contagiante. Apelos os mais dramáticos para serem “atendidos” (cuidados) com a máxima urgência sucumbem ao primeiro sinal que você, como profissional, vai implicá-los de algum modo no tratamento daquele que é nomeado como “problema”.

O não-dito familiar manifesta-se em sintomas. Muitas vezes os filhos, em seus sintomas, denunciam o não-dito dos pais. E nessa denúncia nada silenciosa, justamente as palavras faltam. Falta palavra, sobra tédio.

Nas escolas o drama é similar: professores que chegam embriagados para dar aula, ou faltam por que beberam demais na véspera, professoras alucinadas com seus anorexígenos e os efeitos colaterais diversificados, gestores com cheiro de tabaco na roupa (“no taxi”)... não existem! Apenas alunos embriagados, alucinados, fumantes. Nomear o pseudoproblema é parte da estratégia de terceirização da responsabilidade.

Terceiriza-se a responsabilidade pelos comportamentos e atos em primeiro lugar para o demônio. Em segundo lugar, medicamentos prescritos pelos médicos. E por último, mas não menos importante, para o psicoativo lícito ou ilícito adquirido sem receita, sem controle, sem posologia.

O sujeito está.... Em que lugar? Nenhum. Ou é vítima ou algoz, não é humano.

O tédio (ou “a falta da falta”) é uma experiência cada vez mais banalizada na sociedade tele-tecno-midiática. Falta desejo, sobra gozo. Experiências que supostamente ampliariam a percepção, a consciência, as possibilidades de criação, terminam por entupir os sujeitos do mais amargo excesso de tédio. Excesso de não-querer, de não-desejar.

Escolas e Famílias tem desafios enormes neste momento de grande desigualdade social, grande agilidade na obtenção de informações e um desenvolvimento tecnológico sui generis. O primeiro desafio é permitir espaços legítimos e autênticos para o pensar. Quem pensa não consome, entendendo o consumo como uma compulsão. Quem pensa, cria, questiona, movimenta a vida. Movimento é o oposto da doença (restrição, estagnação). O movimento da vida é considerado o sinal de sanidade.

O espaço para o pensar requer um controle diferenciado sobre o tempo e sobre o modo de se deslocar no mundo. Espaço aqui no sentido subjetivo: cenário para nomeação. A nossa época atual caracteriza-se pelo jargão da “falta de tempo”, lamúria generalizada, queixa fundante. Ter tempo, portanto, é herético e subversivo!
Como as famílias criam espaços para o pensar, para o criar, para o refletir sobre as ações e sobre a possibilidade de se desenvolver responsabilidade (=responder por), empatia, remorso, valores?

Como as escolas-avestruzes seguem implorando e repetindo palestras cada vez mais esvaziadas, pedindo projetos gratuitos por conta da eterna falta de verba, em franca omissão ético-política-pedagógica de se abordar temas complexos e mais que necessários à formação dos sujeitos? Violência, sexualidade, promoção de saúde, equidade de gênero, os temas a partir dos quais se pode trabalhar pedagógica e didaticamente são ricos e com farto material disponibilizado pelas Organizações Governamentais e Não-Governamentais.

Escolas e Famílias podem melhorar. Seus componentes – afinal, os mesmos cá e lá - precisam refletir sobre as ações que desenvolvem, os consumos que incentivam, os exemplos que trazem pela atitude e as contradições com o que é verbalizado.

Aprendemos pelo amor, pela dor, pelo exemplo, pela surpresa, pelo encantamento, pela curiosidade, pela amizade, pela inimizade. Somos seres aprendentes e essa condição humana, demasiadamente humana, requer uma interlocução para que a subjetividade seja considerada.

Aí chega –ou se enraíza?- a Psicanálise.


São Paulo, Março de 2015.

Bibliografia:
- Bento, Victor Eduardo da Silva – Os Componentes Psicopatológicos das Toxicomanias. Curitiba: Edição do Autor, 1986.
- Fernández, Alícia – La AtencionalidadAtrapada. Buenos Aires: Ed. Nueva Visión, 2013.
- Foucault, Michel - Doença Mental e Psicologia. RJ: Editora do Tempo Brasileiro, 1996.
- _____________ - O nascimento da clínica. RJ: Ed. Forense Universitária, 1998.
- Gurfinkel, Decio – A pulsão e seu objeto-droga. Estudo psicanalítico sobre a Toxicomania. Petrópolis: Ed. Vozes, 1995.
- Leite, Eduardo Furtado - Drogas, Concepções e Imagens. Um comentário sobre dependência a partir do modelo usual de prevenção. São Paulo: Fapesp, 2010.
- Lima, Helena Ma. Medeiros – Nem Tudo é Doença: reflexões em saúde e educação. São Paulo: Iglu Editora, 2010.
- ______________________ - Adesão ao tratamento de aids por pacientes com aids, tuberculose e usuários de drogas. Curitiba: CRV Ed., 2012.
- Rosa, Miriam Debieux. – Histórias que não se contam: o não-dito da psicanálise com crianças e adolescentes. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009.
- Winnicott, Donald – Tudo começa em casa. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
- _______________ - A família e o desenvolvimento individual. São Paulo: Martins Fontes, 2012.


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Antonio V. Tavares
28 Março 2015 | 11:31 am

Muito bom! Parabéns pelo trabalho!


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